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  • Felipe Lange

Greve de iFood?

Atualizado: 5 de jul. de 2020

Algumas reflexões e constatações econômicas

Felipe Lange


Só para deixar claro, eu defendo o direito de qualquer pessoa livre se associar e se unir em prol de uma causa, inclusive uma greve, mesmo que seja algo estranho - para dizer o mínimo -, de fazer greve como um entregador autônomo de um aplicativo. Seja para exigir condições melhores de trabalho, seja para pedir por melhores pagamentos. Seria quase como se pedreiros resolvessem fazer greve. Ou eletricistas. Ou encanadores.


A empresa respondeu aqui, para quem quiser ver.


Então, ao contrário de uma empresa comum, os rendimentos dos entregadores de iFood são mais dependentes da oferta e da demanda de consumidores, e da oferta e demanda dos entregadores. O sistema funciona, portanto, com menos intermediários.


Vou expor uma evidência anedótica para tentar sintetizar isso.


Quando voltei para o Brasil, cheguei a arriscar a ser Uber em Mococa, uma cidadezinha de 68 mil habitantes. Após algum processo burocrático (como a bizarrice de ter de obter um EAR e fazer um outro teste psicotécnico, dando quase R$ 200), resolvi entrar na aventura. A cidade tem um problema crônico de desemprego (com uma taxa de ocupação de 26,1% em 2018, o que deverá piorar nesse e nos próximos anos), o que faz com que frequentemente as pessoas, após os 18 anos, acabem saindo da cidade e indo para outras cidades, inclusive para fazer cursos superiores (por aqui, de relevante, há somente a Fatec). No começo achei que estava tendo bons rendimentos, mas com o tempo eu percebi que não compensava. Pelo fato de a cidade ser menor, a procura também era menor. Fazendo alguma contabilidade (e estimando os custos de combustível e afins), o negócio rendia tão pouco que eu acho que seria mais lucrativo se estivesse vendendo bichos-da-laranja do que embarcar nisso (ganhei mais usando uma bicicleta no Uber Eats na Flórida, só para se ter ideia [1]). Claro, realmente "dinheiro fácil" provavelmente só existe para os amigos pessoais do presidente do Federal Reserve, mas o fato é que havia um sinal claro. O sistema de preços é um informante crucial. Algumas pessoas me disseram que ser Uber no Brasil dá pouco dinheiro, ao contrário dos EUA. O que já pode ser até deduzido a priori, visto que os ganhos acabam sendo maiores pois, não apenas a moeda corrente é mais forte mas também de que o americano, por ter maior renda, está disposto a pagar mais caro.


Só que, além destes custos evidentes, há os custos ocultos. Quando estava dirigindo, me deparei com variados tipos de "ruas" (inclusive eu já fui para um bairro com uma estrada de terra tão ruim que era melhor chamarem um cavalo). Quando não haviam inúmeras lombadas (e que simplesmente são colocadas sem critérios, não sendo difícil de encontrar várias dessas lombadas sem cumprimento das normas do próprio Contran), simplesmente há valetas, supostamente para lidar com enchentes (coisa que nunca acontece, já que basta uma chuva maior e vemos várias poças-d'água, além de locais com água acumulada). Além de aumentar o consumo, aumenta o consumo dos freios e da embreagem, além de desgastar as peças de suspensão (e aumentar a poluição). Imagina fazer isso por milhares e milhares de quilômetros. Não há Toyota que aguente. Os custos de manutenção e reparos, já caros, ficam ainda mais onerosos. Algumas lombadas carecem de sinalização e podem provocar até mortes e, no caso de motociclistas, queda da moto. Para piorar, em um bairro distante que eu desconhecia, há também uma bizarra lombada diagonal, uma aberração que deveria ser proibida e nunca ter sido cogitada. Além disso tudo, prejudica até os próprios policiais, bombeiros e motoristas de ambulância. Uma obra pornográfica que eu realmente não consigo descrever com precisão. Se causam tantos prejuízos, por que são colocadas? Parte do potencial eleitorado, apavorado por casos de imprudência causados por motoristas que não deveriam sequer pilotar um carrinho de rolimã, acha que lotar a cidade com essas coisas vai resolver esses problemas e de repente teremos o fim da imprudência no trânsito. Há a bizarrice de lombadas em rodovias (comum no sul de Minas Gerais), uma praga cada vez mais forte (os bandidos também agradecem). A mídia exerce um grande poder de influência sobre as prefeituras, governadores e até presidentes da República (Bolsonaro parece ser a exceção). Em grupos de motoristas de Uber, até cheguei a ver motorista reclamando de subida nos preços dos combustíveis e, com isso, passei um artigo do Mises para eles lerem (esta obra). Não sei se alguém leu.


Normalmente, antes da chegada da Uber por aqui em Mococa, os escassos taxistas cobravam bem caro e, depois das 18 horas, você não ia encontrar nenhum mais. Sim, é sério. Não sei se mudou com a chegada do aplicativo por aqui, já que há algum tempo eu não peço táxi.


Nunca trabalhei de iFood (aqui nem tem isso, assim como o Uber Eats), mas só fazendo um paralelo, é possível de traçar vários fatos que pioram as condições de trabalho deles. E vale inclusive para quem usa bicicleta.


Agora chega de evidência anedótica.



Um diagnóstico


Os grevistas do iFood deveriam ter direcionado toda essa união e energia para aqueles que estão os massacrando todos os dias: o estado.


Eis uma lista de doenças crônicas e suas curas, estas últimas que com certeza melhorariam as condições de trabalho dos entregadores:


1) Banditismo em nível de barbárie. Só no estado de São Paulo, 35 mil motociclistas foram prejudicados por bárbaros. Para mostrar as consequências disso, basta afirmar que isso causa aumento em casos de ansiedade e depressão (que provoca carestia nos preços de consultas de psiquiatras, psicólogos e medicamentos), destruição de capital (afinal, perdeu o bem de capital, a motocicleta), queda no padrão de vida e corrosão das relações sociais (que prejudicam até as entregas). Aumento nos custos de seguro e na habitação (as casas brasileiras parecendo prisões, com moradores tendo que gastar com porteiro, portão eletrônico e muito mais). Além do problema do desarmamento e da impunidade, basta afirmar que nesse ano temos mais essa atitude lamentável cometida por parte do Judiciário, que simplesmente manda soltar centenas de bandidos. Enquanto isso não mudar, continuaremos nessa barbárie.


2) Além de estarmos dispostos de uma infraestrutura espetacular, ainda temos mais uma obra genial: as ruas de paralelepípedo. A aderência dos pneus de borracha comessa superfície é baixíssima, o que aumenta os casos de acidentes. Basta chover e a rua vira uma verdadeira pista escorregadia. Isso é especialmente grave em declives, quando é necessário usar mais os freios. Moeda forte e fim de legislações bizarras sobre a construção de vias municipais (em Muzambinho, por exemplo, as ruas de paralelepípedo são intocáveis por decreto pois são consideradas "patrimônio histórico", mesmo que continue destruindo patrimônio das pessoas que passam por ali...) já deve mudar bastante.


3) O mercado de combustíveis não deve ser chamado de mercado. Há um enorme aparato regulatório sobre o setor, o que por consequência provoca aumento nos preços dos combustíveis e queda na qualidade dos produtos do setor. Outra bizarrice é a pornográfica quantidade de etanol na mistura, erroneamente chamada de gasolina. Pelo menos recentemente o governo federal autorizou a venda direta de etanol pelos usineiros aos postos (antes tinha que vender para distribuidoras e então para os postos). Além de desregular e acabar com essa mistura por decreto, a liberação de venda de carros a Diesel deve ser feita, o que deve provocar queda na demanda por gasolina e etanol, ocasionando a queda nos preços.


4) A habilitação continua algo caríssimo. Além de bastante oneroso, é burocrático e lento, causando algum aborrecimento até nos mais disciplinados futuros motoristas. Na Flórida a habilitação de moto, apesar de requerer que tenha uma habilitação de carro (e de ser um pouco mais cara, por volta de US$ 260), consegue ser obtida em um fim de semana (onde eu morava, as aulas são dadas pela rede autorizada da Harley-Davidson), sem precisar ter dor de cabeça com provas. Fim da obrigatoriedade de aulas teóricas e de autoescola, além de estender a duração da habilitação para dez anos, já ajudam demasiado.


5) Focar na responsabilidade individual. Buscar um sistema penal e jurídico com punições severas (claro que na justiça estatal, isso nunca vai chegar a perfeição, mas dá para melhorar). No trânsito de hoje, isso é quase ausente. Acabar com esses fenômenos já muda bastante. Ao invés de focar em multas e regulações, em educação do trânsito. Isso com certeza é muito mais importante do que aulas de poríferos (e eu gosto de Biologia).


6) Abrir, manter e fechar uma empresa no Brasil continua algo bastante difícil, apesar da recentemente aprovada Lei 13.874 (Lei de Liberdade Econômica). Tudo isso faz aumentar o desemprego, diminuir os salários, assim como causar queda na qualidade dos funcionários e patrões. Essa massa de desempregados, então, vai para alternativas como o iFood (que ainda não foram asfixiadas pelo estado a ponto de cessarem as operações). Como a oferta de entregadores dispara, os rendimentos deles caem. Os primeiros empregos, na prática, não existem. Ofertas de emprego parecem exigências de um órgão estatal e soam como patrões sendo obrigados a te contratar. Ganhar dinheiro de maneira honesta no Brasil é quase crime. A Justiça do Trabalho também ajuda no serviço. Trabalho vira etimologia: um instrumento de tortura para escravos. A Carteira Verde e Amarela ajuda, mas como eu já afirmei neste artigo, é muito fraca. Precisa-se de uma reforma muito mais ampla na legislação trabalhista.


7) O FIES, cujo nome adequado seria "Meu Diploma, Minha Dívida", nada mais é que uma forma de subsídio estatal para as corporações do ensino superior. A obra é genial: o aluno consegue o seu diploma (o qual é exigido, por força de lei, em várias profissões) por um custo supostamente menor (que foi aumentado já com as extensas regulações sobre o ensino) e as corporações, além de ganhar os subsídios do governo, podem também aumentar as suas mensalidades, com o aumento da demanda artificial. Ao mesmo tempo em que muitas vagas de emprego exigem diploma ou "estar cursando ensino xxxx", a oferta de vagas não dá conta dos demandantes, então ninguém escapando da maldição do desemprego, possuindo qualificação ou não. Portanto, a afirmação de "que falta mão de obra qualificada para vagas" não apenas não é um fenômeno generalizado em toda a economia (mesmo porque sabemos que bater pregos e empacotar coisas de supermercado exigem um curso online e a elaboração de teses acadêmicas [2]), como está sobrando mão de obra. Então o poder de barganha do assalariado cai, assim como os salários e o ambiente de trabalho. Além disso, com esse entupimento de demandantes de emprego, surge o chamado fenômeno de "nem-nem" (pessoas que não estudam e nem trabalham). Mesmo que entrar no ensino superior não requeira o endividamento pelo FIES, não há como fugir em definitivo: no ensino superior estatal "gratuito", com custo embutido, você também tem uma dívida que deve ser paga todo ano. Empréstimos que poderiam ir para o setor produtivo, acabam sendo direcionados para um problema que o próprio estado criou. Os EUA são um exemplo. Outra coisa bastante interessante é que para o estado, é perfeitamente aceitável receber uma esmola de R$ 600, para a qual você precisa se sujeitar a uma série de burocracias e dores de cabeça (e um aplicativo com fila virtual), mas um emprego que pague isso é um crime (lembre-se do salário mínimo vigente), mesmo que a pessoa queira e prefira isso a depender do governo. Desregulando o setor de ensino e reduzindo/abolindo impostos já ajuda bastante com esse problema de ensino.


8) Pouco foi dito mas um outro fenômeno surgiu no Brasil: a fuga de cérebros. Como o governo Lula não fez nenhum tipo de reforma supply-side e o governo petista criou vários concursos (e eles ainda vem se orgulhar), os melhores cérebros ou foram para cargos na burocracia estatal, ou saíram do país. Consequentemente, as pessoas mais capacitadas que poderiam ser empregadoras ou assalariadas, estão em falta. O resultado é em serviços e bens mais caros e de pior qualidade, assim como patrões e funcionários ruins. O estrago disso vai ser difícil de ser revertido.


9) Com a nossa moeda estando entre as piores do mundo, assim como a insanidade dos juros artificialmente baixos (menores que os da Suíça), toda a poupança é dilacerada. Os poupadores são punidos e são obrigados a sustentar os esbanjadores (e endividados), assim como os primeiros a pegar esse novo dinheiro criado pelo aparato estatal. A cada dia que você "trabalha duro" de bicicleta ou com motocicleta, você vai perdendo dinheiro e seu poder de compra. Investimentos que poderiam ir para expandir os negócios acabam indo para fundos cambiais e de ouro, só para se proteger da corrosão do poder de compra. O "rentismo" vira de outra categoria. Ainda que os custos dos juros da dívida em tese diminuam, ocorre uma oculta destruição. Tempo que poderia ser gasto em inovações e trabalho, acaba sendo gasto em cursos, vídeos e artigos sobre como se proteger da desvalorização da moeda.


10) As leis de zoneamento são um outro exemplo. Todas elas causam aumento nos preços da habitação e, com todas as outras regulações, as distâncias acabam tendo que ser maiores (inclusive para fazer entregas). Isso aumenta os custos de rodagem e o cansaço. Nos EUA, existe o fenômeno esquisito de que em muitas cidades americanas, se você não tiver um carro, estará sentenciado a ficar isolado (como eu estava, o que até hoje pouca gente para a qual eu conto entende), dado o fato de que a distância de deslocamento é bastante grande e normalmente as empresas que usam carros como bem de capital (como pizzarias, para entregar... pizzas) requerem que os aplicantes de emprego tenham o carro próprio, já que carro lá é acessível. Todas as legislações de habitação devem ser abolidas.


11) Baratear a manutenção e compra de automóveis usados e novos. Com os custos mais baixos de manter e comprar carros, agora poderá haver mais entregadores de comida com carros, o que também irá reduzir o custo de manter e comprar uma motocicleta (já que a demanda por elas irá diminuir).


12) E por último, inovações como os patinetes elétricos devem ser totalmente livres. Enquanto tivermos planejadores centrais, a mobilidade urbana continuará sendo atacada.



Essas são apenas algumas das principais causadoras dos problemas envolvendo os entregadores de empresas como o iFood (que acabam valendo também para outros setores de entrega, como o Loggi). E, também importante, como alguns já disseram: o intuito de ser entregador nesses aplicativos não é de construir uma carreira ou constituir uma família, e sim em ser uma fonte de renda inicial (ou mesmo de arranjar uma forma produtiva de preencher aquele tempo de sobra), principalmente para aqueles mais necessitados e que não têm condições financeiras de se qualificar para os primeiros empregos.


No fim de tudo isso, os mais pobres são os que mais sentem a falta de uma economia livre e sofrem com os problemas típicos de países atrasados: criminalidade alta (no Brasil, barbárie), infraestrutura inexistente, insegurança jurídica, instabilidade econômica e política, entre tantas outras coisas.


É nesses tempos que precisamos de mais liberdade, poupança e capital.


 

Indicações de leitura:


- O que o coronavírus e a Coreia podem nos ensinar?

- Por que os produtos brasileiros exportados são melhores e mais baratos?

- O problema da pobreza;


 

Notas:


[1] Normalmente onde eu morava (condado de Palm Beach) quase ninguém compra de entregadores de bicicleta, preferindo de carros, já que os alimentos e bebidas podem chegar todos danificados, e isso que lá as ruas e calçadas são quase todas impecáveis (lá é permitido andar nas calçadas onde não há faixa prevista para ciclistas). O rapaz que recebeu os meus pedidos, felizmente, não me deu nota negativa.


[2] Espero que tenham entendido a ironia.

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