• Felipe Lange

Bolsonaro: um resumo de 2019

Atualizado: Mai 11

Mas vai ter 2020 também

Felipe Lange


Embora no ano passado tenha morado majoritariamente na Flórida, tenho acompanhado os rumos da economia brasileira desde pelo menos meados de 2014. É óbvio, somente eu estava morando por lá e, se a economia piorasse, que seria de familiares meus morando no Brasil? E as outras pessoas? Quando se fala de Economia, sempre tento exercer alguma empatia para com outras pessoas.


Fora o fato de o governo ter brincado de telefone sem fio com seus filhos no Twitter, algumas fofocas, vídeos do Olavo e afins, o que mais importa é: como a economia do país reagiu? O governo tomou ou deixou de tomar quais medidas?


Vou então listar algumas das medidas tomadas pelo atual governo, assim como abordar outras questões como câmbio, orçamento, inflação, entre outros. Como a questão cambial virou uma encrenca cada vez pior, ela será abordada nesse ano de 2020.


Vamos começar pelas piores partes do governo e da economia como um todo. Vai ter alguns gráficos. Pode haver algum juízo de valor, mas evitarei o quanto possível.



Os tormentos


Uma das várias delícias da Economia é que ela não tolera paixões, ódios e ideologias. Ela é uma ciência que existe independentemente dos juízos de valor.


O câmbio é certamente uma das coisas mais cruciais de uma economia. Abaixo, gráfico que mostra a taxa de câmbio de USD/BRL (dólar americano para real brasileiro, cujo endereço é este) de 31 de agosto de 2016 (data da posse de Michel Temer) até 27 de dezembro de 2019.


O gráfico está com algumas falhas, mas ainda servirá para o mesmo propósito.



Agora, o gráfico que mede o índice DXY que mostra praticamente o mesmo período de tempo (neste caso vai até 27 de janeiro deste ano). Endereço é este.


Quais as implicações? O índice DXY é um índice no qual mostra o poder de compra do dólar em relação ao euro, ao iene japonês, à libra esterlina, à coroa sueca, ao dólar canadense e ao franco suíço. Quanto maior esse índice, mais poder de compra tem o dólar. Quanto menor, menos poder de compra a moeda americana possui. Esse índice tem subido consideravelmente desde meados de julho de 2014, quando a equipe econômica do Obama passou a defender abertamente uma moeda forte (e o governo ficou "travado" depois de 2013). Isso fez com que a economia americana se recuperasse com força da cruel recessão de 2008. Uma hora a nova recessão irá estourar, é claro, mas certamente uma moeda forte irá adiar ou no mínimo amenizar os efeitos da recessão. E uma coisa é os EUA entrarem em uma crise, outra é o Brasil. Outra coisa a se levar em consideração é que lá, quando ocorre esse tipo de situação, de algum presidente ficar travado no Congresso ou, mais recentemente, o governo entrar em shutdown, a vida cotidiana dos americanos não muda. Como existe uma maior liberdade econômica, então toda a sociedade acaba se tornando menos dependente do aparato estatal.


Apesar do Michel Temer ter sido um governo impopular e detestado por todos, é inegável de que o real se manteve mais forte e estável em seu curto período de governo. E ele cumpriu com rigor as metas de inflação, algo que não se via no Brasil desde 2006 (gráfico será mostrado abaixo). Isso, em conjunto com a severa contração monetária ocorrida (o que havia acontecido lá em 2015, ainda no dilmismo), fez com que a inflação de preços chegasse em mínimas históricas.


Agora, neste gráfico abaixo, vemos o índice de commodities, precificados em real brasileiro. O gráfico começa no dia 2 de maio de 2016 e vai até o dia 1 º de janeiro deste ano (o site usado foi este).



Como dito no outro artigo, o índice de commodities é um outro indicador importante da saúde de uma moeda, pois as commodities interferem nos preços de todos bens e serviços.


Michel Temer herdou o Brasil já em um cenário de dólar mundialmente forte e, apesar disso, deixou um real relativamente estável e forte (se é que dê para considerar o real uma moeda forte). Um de seus principais erros, no entanto, foi tentar um pseudo-ajuste baseado em impostos (Henrique Meirelles também está nessa). Foi quando, em julho de 2017, eles fizeram isso:


"Governo divulga aumento de alíquota do PIS/Cofins sobre combustíveis

[...]

A alíquota subirá de R$ 0,3816 para R$ 0,7925 para o litro da gasolina e de R$ 0,2480 para R$ 0,4615 para o diesel nas refinarias. Para o litro do etanol, a alíquota passará de R$ 0,12 para R$ 0,1309 para o produtor. Para o distribuidor, a alíquota, atualmente zerada, aumentará para R$ 0,1964. A medida entrará em vigor imediatamente por meio de decreto publicado em edição extraordinária do Diário Oficial da União. "



Ou seja, a máquina de espoliação foi aumentada. Eles esperaram que aumentar ainda mais o assalto nos combustíveis iria incentivar a atividade econômica e aumentar a "arrecadação". O crescimento ficou entre medíocre e zero. Embora os déficits tenham caído, a dívida foi aumentando.


Retornando aos primeiros gráficos exibidos, note que no começo de 2018, o dólar voltou a aumentar sem parar, junto com os preços das commodities (porque as commodities são precificadas em dólar), antes mesmo da greve dos caminhoneiros. Por quais motivos? Vamos lá...


(1 º) Esse encarecimento contínuo do dólar frente ao real foi pela queda na taxa SELIC (mas foi ínfima, pode ver neste gráfico) e pela subida nos juros americanos. A queda na SELIC brasileira foi ínfima mas como a taxa de juros americana foi subindo mais e mais, isso levou parte dos investidores para os EUA (foi de 1,5% para 2,25%, maiores valores desde meados de 2008). O índice DXY, já alto, subiu.


Taxa SELIC no Brasil. 1 º de janeiro de 2017 a 1 º de janeiro de 2019.



Taxa de juros americana de 2015 até os dias atuais.



Inflação efetiva x Meta de inflação. Gráfico feito por minha conta.



O M1 começou a subir em 2018 (soma de todas as cédulas e moedinhas em poder do público mais todos os depósitos à vista). O M1 é totalmente controlado pela SELIC. Quando a taxa SELIC sobe, a expansão monetária é contida e/ou contrai, quando a taxa cai, a expansão ocorre, pois as pessoas passam a tomar mais crédito.


M1, de 01/01/2017 até 31/12/2018.



Com isso, os juros reais brasileiros ficaram baixos, o que fez com que os juros americanos tenham voltado a ficar atrativos. Mas os juros americanos ficaram atrativos para investidores do mundo todo (e a Argentina também ajudou nisso). O percentual de investidores estrangeiros é gigantesco. Esses juros incidem sobre a dívida do governo americano.


Embora esse tipo de investimento seja por natureza improdutivo por você basicamente estar emprestando dinheiro para uma máquina burocrática de desperdiçar dinheiro, os juros em outros setores da economia são também afetados. No mundo, só o Brasil e os EUA usam o modelo atual de manipular as taxas de juros (muitos outros países também o fazem, mas a metodologia é um pouco diferente).


Há vários motivos para a taxa de juros americana ser baixa. Basta dizer de que, além do governo americano nunca ter dado calote e já ter em seu histórico um severo corte de gastos e na sua dívida, essa dívida é lastreada em uma moeda forte e em uma população rica e produtiva (afinal, quem sustenta tudo isso é a população do país). Quanto mais rica e produtiva é sua população, maior a capacidade ela terá em financiar essa dívida através da criação de novos impostos (ou mesmo da emissão de novos títulos, rolando a dívida). Enquanto a população se mantiver assim (ou ao menos ser vista dessa forma), esses títulos continuarão tendo credibilidade. E há outro detalhe: a economia americana é uma das poucas do mundo desenvolvido que vem apresentando um crescimento robusto e com taxas de juros positivas (na Europa, o contrário).


De um lado, de princípio parece ser bom a taxa de juros brasileira ter caído de tal modo e, então, menos pessoas estarão dispostas a financiar o governo. Infelizmente, entretanto, não é com essa diminuição de pessoas dispostas a financiar a máquina, que o governo irá simplesmente desaparecer. O que irá acontecer é que simplesmente o governo terá de se financiar de qualquer jeito, então ele irá aumentar os juros para voltar a atrair "investidores". Como o Brasil sempre foi um ambiente hostil aos negócios, muita gente irá preferir financiar o governo do que investimentos produtivos, pois o governo jamais irá dar calote. Se o governo simplesmente calotear os seus financiadores, aí sim ele começa a ruir. Como afirmou Leandro em 2016, em seu artigo:


"Antes de prosseguirmos, uma rápida consideração sobre "as chances de calote".


Quando você entende que o governo precisa de dinheiro emprestado apenas para continuar existindo, torna-se claro por que ele jamais dará o calote em seus credores, como recorrentemente gostam de alertar alguns catastrofistas.


Isso seria de uma burrice inominável.


Apenas pense: hoje, o governo só consegue se manter porque pega dinheiro emprestado. Tendo um déficit primário — isto é, desconsiderando toda a despesa com juros — de 3% do PIB, o governo não paga nem o funcionalismo público e nem o salário de seus políticos se não tomar dinheiro emprestado.


Sendo assim, ele precisa se endividar simplesmente para continuar funcionando.


Ao dar um calote, o governo estaria fechando exatamente aquela fonte de financiamento que sempre lhe esteve aberta e disponível. Mais ainda: estaria acabando exatamente com aquilo que o mantém vivo.


Ora, você não mata quem sempre lhe empresta dinheiro e que faz com que seja possível você fechar suas contas.


Adicionalmente, vale ressaltar que nem a Venezuela de Chávez e nem a Argentina dos Kirchner fizeram isso. A Argentina deu o beiço nos credores estrangeiros, mas não nos nacionais.


Sim, haverá calote no Brasil, mas este não ocorrerá com os títulos públicos em mãos de bancos, fundos de investimento, cidadãos e empresas nacionais. O calote ocorrerá sobre aqueles grupos que têm menos poder político: aposentados, pensionistas, dependentes de assistencialismo etc. Chegará um momento em que estes não mais receberão nada.


Mas, antes disso, ainda haverá cortes na saúde, na educação e na cultura. Terá de haver. Assim como também terá de haver vendas de ativos. Haverá privatizações, mesmo que a contragosto. Em última instância, o governo preferirá vender todas as suas estatais a calotear a dívida pública (e há muitas estatais a serem vendidas). "



Suponha que o governo ofereça 14% em taxas de juros anuais para quem financiar seus déficits, e um empreendedor à procura de crédito peça empréstimo a um banco à uma taxa anual de 10%. Para quem o banco irá emprestar dinheiro? Para um empreendedor que pode simplesmente falir e não poder pagar a dívida, ou para o governo, que pode pagar essa dívida através de novos empréstimos, impostos e impressão de dinheiro? Para concorrer com o governo, os bancos simplesmente irão ofertar crédito a juros pelo menos maiores do que os oferecidos pelo governo.


No fim, além do histórico de calote e de moedas fracas e imprestáveis - basta dizer que os períodos de moedas menos ruins foram 1906-1920, 1995-1998; 2003-2011 e 2016-2018 -, há o fato de que o governo brasileiro não controla as despesas, o que pode ser comprovado pelo gráfico abaixo.


NFSP : "Necessidades de Financiamento do Setor Público".

Déficit total do governo, incluindo juros da dívida, janeiro de 2000 até começo de 2018.



A parte fiscal foi certamente uma das piores no governo Temer, embora ele já tivesse herdado esse presente amaldiçoado.


Se o governo incorre em déficits por não controlar as suas despesas, isso significa que ele está simplesmente tomando crédito que poderia estar sendo aplicado em investimentos produtivos, pois ele irá disputar o crédito disponível (e escasso) com os indivíduos. Na prática, ocorre uma competição entre "investir" nos títulos do governo ou no setor privado. Além disso, há o fato de que esse aumento dos déficits e da dívida gerarão uma futura necessidade de aumentar impostos, o que prejudica investimentos de longo prazo. Ou simplesmente de emitir mais títulos, o que irá asfixiar ainda mais a economia. Quando ele emite mais títulos, então mais dinheiro é tomado e este disputa com o setor privado. Como a oferta de crédito cai, então as taxas de juros aumentam. Com os aumentos das taxas de juros, menos investimentos produtivos serão viabilizados.


A outra forma do governo tentar pagar essa dívida seria pela simples impressão de dinheiro. E então teríamos uma hiperinflação. Isso é o que acontecia antes da privatização dos bancos estaduais (e da Lei de Responsabilidade Fiscal). O arranjo monetário e financeiro hoje é diferente. Antes, o Banco Central podia simplesmente comprar títulos diretamente do Tesouro, na prática imprimindo dinheiro e dando então para o governo torrar. Hoje, o Banco Central não pode mais fazer isso e financiar diretamente o governo. O Banco Central pode, nos dias atuais, "apenas" injetar esse dinheiro no sistema bancário. Então, na prática, o sistema bancário é quem decide quando esse dinheiro irá entrar diretamente na economia. Tanto é que, se houvesse uma hiperinflação, os bancos então teriam seus empréstimos quitados com uma moeda sem nenhum poder de compra, e isso por consequência não haveria nenhum sentido econômico. Isso, por exemplo, não acontece na Argentina, onde o banco central de lá pode injetar dinheiro diretamente na economia. É por isso que a inflação de preços argentina é bem maior do que a brasileira (vale lembrar que eles abertamente maquiavam as taxas de inflação), assim como a taxa de juros. Mais detalhes sobre o funcionamento do sistema bancário e do banco central podem ser vistos aqui e aqui. Falaremos um pouco mais dos juros depois.


(2 º) Outra coisa: Começou a greve dos caminhoneiros, o dólar aumentou mais um pouco, as commodities haviam disparado antes, não mudando muito. Além disso, começou o período eleitoral, com um possível pesadelo de o Lula voltar ao poder espumando de raiva. Todo ano de eleição presidencial será sempre a mesma coisa, dado de que a economia brasileira é tão regulada, de que a nossa vida é quase que em função de todo esse aparato estatal. O sossego só voltou depois do Bolsonaro ter sido eleito. Como esperado, com discursos do ministro Paulo Guedes e naquele clima de lua-de-mel, o real foi valorizando, mas logo foi sendo atacado.


Agora irei listar algumas ações que podem ser consideradas ruins para a economia como um todo. As que lembrei, é óbvio.


- Tributação de férias e décimo-terceiro salário (análise aqui).

- Controle de preços no cheque especial.

- Imposto para motoristas de aplicativo, para sustentar o INSS (e que logo terá de ser remendado de novo).

- Aumento da alíquota do CSLL para bancos. Mais um imposto.

- Criação da Câmara da Cerveja. Na prática, uma agência reguladora para regular esse mercado.

- Tarifas de importação para o leite. Provavelmente ninguém nesse governo vai ter coragem de enfrentar o lobby dos corporativistas do setor agropecuário.



As partes razoáveis


Estaria sendo rígido? Não: o Brasil já passou pela boa fase demográfica, onde o crescimento econômico vinha quase que por gravidade. O crescimento virá inevitavelmente (pois vivemos em ciclos econômicos), mas no quadro atual do país, permanecerá em taxas medíocres (décadas atrás já foi passado pela Coreia do Sul, é possível que assim seja passado por países como o Peru, que por enquanto tem apresentado taxas respeitáveis de crescimento). Toda aquela estrutura encalacrada permanece quase intocada.


Claro que sabemos que o Bolsonaro não pode fazer muita coisa (iria mencionar mais medidas, mas algumas foram barradas pelo Judiciário e outros poderes), graças à atrasada e socialista Constituição Federal de 1988, no entanto já que ele está aí, no mínimo ele tem de fazer a maior desestatização possível.


Mas e então, o que foi feito dentro desse patamar?


- O remendo no sistema previdenciário brasileiro. Está previsto em gerar um considerável corte de R$ 800 bilhões para os próximos 10 anos. Houve ataques a certos privilégios do funcionalismo estatal, embora a parte ruim tenha sido a questão de aumentar alíquotas. Remendo? Sim: como o sistema atual depende do número de "contribuintes" e diretamente vai para os atuais aposentados, então é altamente dependente da demografia. Daqui algum tempo, terá de ser mexido de novo (como está acontecendo agora na França, um país mais rico e produtivo do que o Brasil). E então aí eles vão ficar naquelas geringonças, aumentando idade de aposentadoria, alíquotas e afins. O critério de idade mínima é extremamente arbitrário e infelizmente não foi colocado um sistema de capitalização. O sistema de capitalização chileno é também problemático (principalmente por ser compulsório e controlado pelo governo), mas pelo menos nele existe acumulação de capital e você vai receber alguma coisa. Amenizaria o problema demográfico se a produtividade brasileira estivesse em rápido e constante crescimento. Mas não é isso que tem ocorrido. Proibir relações sexuais antes do matrimônio, vasectomia e métodos anticoncepcionais, para tentar aumentar a taxa de fertilidade? Não deixe um burocrata ler isso.


- Cartão verde e amarelo. O problema é que, além dessa flexibilização das regras trabalhistas ser fraca e atingir somente uma faixa de idade, a vigência ainda será temporária. Enquanto ninguém mexer na reencarnação brasileira da Carta del Lavoro, desemprego ainda será um problema crônico (e isso assola o Brasil há décadas), e uma vaga de batedor de prego continuará exigindo diploma e experiência (e tem que ser comprovada na carteira de papel, hein?). Infelizmente, questionar a sagrada bíblia getulista por aqui é como pregar aborto em uma missa. O próprio fato de existir uma carteira de papel (ou um mini-livro) já denota o atraso extremo no qual o Brasil se situa (pergunte isso a um americano, a um alemão e a um suíço e eles não irão entender). A única forma de melhorar as condições de trabalho e reduzir as jornadas de trabalho é com aumento da produtividade, do capital e do padrão de vida (além de aumentar a oferta de patrões). Na Dinamarca a legislação é extremamente flexível, a jornada de trabalho é das menores do mundo e a taxa de desemprego é baixíssima. Só copiar o que é feito lá. Os sindicatos lá são de respeito: até ajudam a pessoa a conseguir um outro emprego.


- Concessões. É fato notório de que a infraestrutura brasileira é simplesmente asquerosa, tão ruim que chamar aquilo de infraestrutura é uma ofensa grave ao substantivo. Pense nos aeroportos e seus voos atrasados, rodovias medonhas (isso no interior de SP; ainda há regiões piores), rodoviárias que mais parecem assombrações (algumas com gente embriagada e que vem encher o saco), ruas... Por exemplo, por algum milagre, finalmente asfaltaram a BR-163 (que estava há décadas largada), apesar de ainda estar com problemas. Não basta apenas os buracos, irregularidades, solavancos... ainda há as malditas lombadas (e muitas sequer cumprem normas do Contran, e fica por isso mesmo), uma preferência injustificável por parte dos potenciais eleitores, além das valetas. Listar todos os danos causados por uma infraestrutura inexistente daria um livro, no mínimo. Apesar de as concessões serem melhores do que um controle total por parte do estado, elas ainda são problemáticas, pois apesar de existir uma iniciativa privada para investir, ainda há controle. Milagre é quando sai algo bom nisso, como ocorre, por exemplo, nas estradas administradas pela Renovias (como a Rodovia Adhemar de Barros), do plano de concessões lá do governo Mário Covas, de qualidade praticamente suíça, sem brincadeiras. Há um trecho da SP-333 que é duplicado e é parecido com a rodovia anteriormente mencionada, embora um pouco mais degradada, na entrada de Ribeirão Preto através de Serrana.


- Habilitação. Hoje em dia, o melhor meio de transporte para o mais pobre é o carro. Quem mora em grandes cidades e acha que o Brasil todo é igual à Avenida Brigadeiro Faria Lima talvez não enxergue isso, mas quem já morou ou passou em cidades pequenas interioranas sabe que isso é primordial ao extremo. Infelizmente, o processo para se obter a habilitação de um carro é extremamente oneroso e ineficiente (tanto é que se fosse eficiente, hoje teríamos motoristas dos melhores do mundo), além dos próprios veículos serem caros de comprar e de manter (além de serem ruins, somado ao combustível tenebroso e caro). A retirada da obrigatoriedade do simulador já vai aliviar a vida de novos jovens que queiram tirar o documento, além da redução de aulas obrigatórias. Além disso, aumentou limite de pontos e a duração da carteira. O Bolsonaro defende algo que é mais próximo do modelo americano de obtenção de habilitação, que é na visão do autor, o melhor do mundo. Quando tirei a minha habilitação na Flórida, foi algo extremamente prático. Aulas práticas de direção só são obrigatórias para alguns casos (você pode aprender a dirigir com qualquer pessoa maior de 21 anos e que tenha habilitação e o seguro obrigatório), e você pode estudar no conforto de sua casa para a prova teórica. Inclusive, dependendo do condado, pode fazer, no mesmo dia, ambas as provas teórica e prática, e sair com a habilitação na mão. Menores de idade (à partir de 16 anos) também podem começar o processo, embora com mais restrições. O atendimento é rápido (mais rápido do que ir com a mãe ao supermercado) e o agendamento é feito pelo site. Exame de vista é feito no mesmo dia da prova teórica. Tudo isso me custou US$ 66,50 (há regiões e casos onde fica ainda mais barato que isso). Bolsonaro e Tarcísio, trabalhem para que isso se torne o menos oneroso possível. Afinal, quem ganha com essa pornográfica burocracia? Com um sistema tão caro, somado à inúmeras multas e aos escorchantes impostos (tais como o IPVA), já era para o Brasil estar todo coberto por pavimentação alemã (ou pelo menos americana), e não com uma fábrica de matar motoristas e passageiros.


- O Ministério de Minas e Energia publicou uma portaria que deve abrir parcialmente o mercado de energia elétrica, gradualmente e ao longo dos anos. O problema: eles poderiam ter feito mais. Pelo menos o Ministério defende que o setor de petróleo e gás tenha abertura comercial. Será que assim teremos gasolina com 10% de etanol, sem adulteração e por R$ 2 o litro?


- Anvisa flexibiliza a importação de remédios com canabidiol. Melhorou um pouco, mas uma contradição fica: se você cultivar para fins medicinais, continuará sendo um criminoso. Na prática, apenas as empresas aprovadas pela agência poderão fazer essa importação (essa maravilha). Na Flórida o uso medicinal é liberado. Quando estive em uma loja de animais de estimação (que, sinceramente, faz qualquer grande loja do setor no Brasil parecer uma lojinha de bairro), cheguei até a ver remédios para cachorros que usavam maconha na composição. Jair Bolsonaro, vamos abolir a Anvisa? Esses são exemplos de funções da autarquia. Voltemos a isso.


- Flexibilização nos saques do FGTS. Mais dinheiro para os indivíduos, menos para burocratas. FGTS é só mais uma distorção econômica. Parte do seu salário é roubada para um fundo que rende menos do que a poupança, que vai para programas espetaculares como o Minha Casa, Minha Vida (ou melhor, Meu Casebre, Minha Dívida). BNDES também entra nessa farra.


- Selo Arte. Acaba com bizarrices regulatórias sobre produtos artesanais como queijos. A regulação continua, mas pelo menos agora o sujeito não é mais proibido de vender queijo para um outro estado (havia a possibilidade, mas o processo era tão burocrático que apenas um percentual pequeno dos produtores conseguia a licença para vender para outra federação). É ainda uma incógnita, para falar a verdade. Será que vai acabar com bizarrices como contrabando de queijos para participar de concurso francês (é evidente de que quem elaborou o concurso é estúpido e entende menos de queijos artesanais do que o burocrata em sua cadeira confortável)? Claro, a UE com sua regulação também não ajuda, mas e quanto ao Brasil?



As partes muito boas


Essas sim podem trazer algum leve otimismo sobre o que aguarda a economia brasileira para os próximos anos.


- MP 881. De fato, a MP trouxe algum suspiro de liberdade econômica. A parte triste: sofreu alguns vetos infelizes e as prefeituras continuam tendo autonomia de exigir alvarás e demais regulações, se assim quiserem. Uma parte considerável dos empregos gerados está concentrada nos pequenos empreendedores. Isso terá um efeito considerável para as próximas décadas (para empregos e acumulação de capital), se devidamente respeitada (o que nem sempre ocorre no Brasil).


- Alteração e extinção de normas regulamentadoras. Menos burocracia e menos custos para empreendedores. Explicação aqui.


- MP 910. Facilita a apropriação de terras da União, regularizando a situação de propriedade. O Brasil estragou isso lá com a Lei de Terras de 1850, o que sabotou o desenvolvimento de ferrovias e a acumulação de capital dos imigrantes que vieram para o país décadas depois. Hernando de Soto escreveu um livro só falando sobre isso, chamado "O Mistério do Capital", expondo a situação no Peru e América Latina, mostrando como há uma gigantesca perda de capital, já que as terras em situação de informalidade não podem ser utilizadas para coisas como abrir um negócio. Com terra regularizada, o sujeito agora pode fazer coisas como obter crédito e receber encomendas (pois agora recebe um endereço).


- Decreto nº 10.157. Apenas com uma canetada, o governo simplesmente criou um decreto baseado em princípios de livre concorrência no setor de ônibus interestadual e internacional. Não é ainda um sonho, mas já vai melhorar muita coisa (possivelmente mesmo para o meu caso, caso vá de ônibus de Muzambinho a Mococa). Pena que não interfere nos ônibus intermunicipais. Certamente abolir a ANTT e todos os seus derivados irá tornar o setor de excelência (o que irá melhorar até para transporte por vans).


- Fim do horário de verão. Como não houve a soltura de fogos de artifício?Infelizmente essa aberração ainda existe na Flórida, onde eu morava. Então, por causa disso, às 18 horas da noite, quando ia andar de bicicleta, aquele sol forte de verão vinha sobre o meu corpo e sugava minha alma (acho que não sugou a dos americanos, já que a grande maioria felizmente usa seus carros com ar-condicionado). Artigo recomendado para leitura. Além de ser totalmente anti-ético (basicamente o governo controlando até o seu horário de dormir), é claramente uma distorção econômica.


- Fim de tarifas. O governo zerou tarifas de inúmeros equipamentos. Em resumo, bens de capital (tem até máquina de fazer salgadinho no meio). São os bens de capital que aumentam a produtividade, permitindo aumentos salariais e, assim sendo, enriquecem toda a sociedade. Para haver esse aumento, bens de qualidade precisam ser adquiridos. Muitos desses bens de capital são importados. Zerar essa tarifa não apenas irá baratear a aquisição dos equipamentos mas, também, com o aumento das margens de lucro, a tendência é que haverá uma menor necessidade de aumentos de preços (já que vivemos em um mundo de moeda fiduciária, que é o que causa inflação de preços). A parte ruim: será temporário (até fim de 2021) e deveria englobar mais coisas.


- Future-se. Programa ainda não saiu do papel (uma consulta pública foi aberta no começo desse mês de janeiro), mas como é relevante e foi elaborado no ano passado, cabe menção. Apesar de ter recebido críticas, só o fato de flexibilizar financiamento privado de universidades estatais já é algo louvável. Hoje esse financiamento é praticamente proibitivo, principalmente porque não se pode cobrar critérios sobre uso desses recursos doados e a administração de recursos é controlada por um comitê burocrático (por isso que o Museu Nacional, controlado pela UFRJ, não recebeu doações, apesar de ter havido interessados). Hoje, infelizmente, não é difícil achar instituição estatal de ensino superior se comportando como se estivesse fora da realidade, demonizando o mercado (apesar de existir graças a ele). Enquanto nos EUA (mesmo universidades estatais) é comum haver programas de inserção no mercado de trabalho (que existe por sinal graças ao fato de que o setor é bem mais livre do que o brasileiro), com parcerias, por aqui isso é praticamente inexistente. Mesmo porque é extremamente humilhante os alunos ficarem dependendo de políticos e do orçamento para receberem verbas ou não (sabemos de que os alunos não têm dinheiro para viajar de avião e então fazer lobby em Brasília, como outras categorias fazem). Por que não abrir mais as instituições ao mundo externo? Mesmo possuindo um considerável gasto em ensino superior (principalmente porque o país é ainda pobre), o Brasil continua sem nenhum prêmio Nobel. Mais humilhante que isso, é o fato de que até países vizinhos como México, Argentina, Colômbia e Venezuela possuem.


- Fusão de ministérios. No governo Dilma o inchaço chegou ao pornográfico número de 39 pastas. Hoje são 22 ministérios. Menos burocratas e menos políticos controlando a nossa vida. É muita coisa ainda, mas já é uma redução considerável. A título de comparação, na Argentina são 21, no Peru 15, no Chile 24, no Paraguai 13 e no Uruguai também 13.


- Veto da isenção de cobrança de bagagens em voos domésticos. Menos custos artificiais para empresas aéreas. Além disso, a decisão de deixar empresas com 100% de capital estrangeiro atuarem no país irá melhorar ainda mais. No ano passado, já chegaram algumas empresas na categoria de baixo custo.


- Redução no seguro DPVAT (tinham extinguido, mas virou aquela maravilhosa novela brasileira e que a cada mês, aparece de uma forma diferente). Menos custos, mais dinheiro para o povo.



De fato, foram muitas coisas boas feitas nesse ano de 2019. Até que foi feita muita coisa. Certamente deixei de mencionar alguma coisa, então eu me desculpo de maneira antecipada, certo? Mas e as outras variáveis?



Orçamento e afins...


Como mostra o gráfico abaixo, não houve mudança significativa nos déficits (vale lembrar que no ano passado o governo teve de tomar emprestado mais quase R$ 250 bilhões).



Em valores proporcionais do PIB, por enquanto ainda não saiu os dados do ano passado. Assim sendo, ficamos até para o ano de 2018:



Como dito anteriormente, a dívida do governo brasileiro só foi aumentando. Com a aprovação do remendo previdenciário (e ainda incluso com uma medida provisória para combater fraudes, aumentando a redução nas despesas), isso deve começar a mudar. Em algum momento, a economia cresce. No ano passado, a taxa de desemprego teve uma leve queda (o que aliás vinha ocorrendo desde que a Dilma saiu, além de ter sido ajudado pela leve reforma trabalhista feita no governo Temer). Está pior do que no Paraguai, sabemos, mas uma economia sofrida como a brasileira (como será demonstrado com demais dados) deu uma melhorada. Com essa tendência de queda no desemprego, assim como esses e futuros cortes, tenderão a reduzir os déficits do governo para os próximos anos (pois o governo precisa gastar menos com programas como o seguro-desemprego, além de ele aumentar a "arrecadação"). A dívida bruta do governo teve uma leve queda (de 76,5% para 75,8%), primeira vez desde 2013. Nesse aspecto já ganhou do governo Temer com folga. Só que essa recuperação será atordoada pelo problema cambial.



O Real realmente irá valer?


Esse é algo que tem afligido os austríacos desde pelo menos o ano passado.


Antes de tudo, vejamos mais de perto como está a taxa de câmbio do dólar americano para o real brasileiro, de 28 de outubro de 2018 até dia 31 de janeiro de 2020.


Notem de que até a posse dele em janeiro, o dólar foi subindo. Qual o motivo? Pela economia brasileira ser altamente dependente de commodities, os preços delas no mercado internacional (que são determinados pelo dólar americano) influenciam no câmbio. Na prática, o real fica atrelado aos preços das commodities. Quando os preços das commodities estão em alta, isso significa que o dólar está fraco; quando os preços das commodities estão em baixa, isso significa que o dólar está forte. Ou seja, o real é também servo do dólar americano.


Abaixo, o gráfico que mostra as variações das commodities:



Em janeiro, já após a posse e naquele período de lua-de-mel, o real se fortaleceu.


Agora vamos tentar organizar por ordem cronológica a trajetória da moeda:


- De meados de fevereiro até meados de junho, o real voltou a afundar. O motivo? Embora as commodities em parte do período tenham encarecido (ou seja, o dólar se desvalorizou), em meados de abril elas voltaram a cair de preço, o que não afetou tanto. O que causou? Política: quem estava acompanhando o panorama político sabia do que estava ocorrendo. Brigas internas dentro de pessoas no próprio governo, Olavo de Carvalho, um querendo empurrar a responsabilidade da reforma para o outro... como o Brasil é um país severamente afetado pela política (por ter toneladas de intervenções e incertezas políticas e jurídicas), basta um político fazer alguma fofoca no Twitter, que pronto, o real afunda.


- E então, meio de junho até meio de julho, uma contínua valorização do real perante o dólar americano, chegando a R$ 3,71 (mais exatamente, 18 de julho), menor valor desde fevereiro do mesmo ano, embora ainda longe das baixas conseguidas no governo Temer. No começo de julho, a primeira parte da reforma previdenciária seria aprovada na Câmara.


E uma continuação feita pelo Leandro Roque (o qual mencionei inúmeras vezes por aqui; o comentário original é este; feito no dia 07/12/2019) mostrando a trajetória disso:


“1) O Banco Central começou a reduzir a SELIC com muito mais intensidade que o previsto. A previsão inicial era de que, ao fim de julho, ele reduziria 0,25 ponto percentual e que o Fed reduziria 0,50 ponto percentual; só que aconteceu exatamente o inverso; e o BACEN prometeu levar a SELIC para 4,50%, algo totalmente impensável em julho. Começa uma fuga do real.


2) No dia seguinte, recomeçou a guerra comercial entre os governos de EUA e China, o que gerou tensão e nova fuga para o dólar.


3) No mesmo fim de semana, houve o "surpreendente" resultado das eleições na Argentina. Nova fuga.


4) Em uma semana, o dólar saltou de R$ 3,75 para R$ 4,05.


5) Como já estava claro que o BC nada faria para proteger o real, todo mundo fez o que era racional: abandonou a moeda e foi para o dólar. Óbvio: a partir do momento em que a própria autoridade monetária, a suposta "guardiã da moeda", deixa explícito que não está interessada em protegê-la, então o mais lógico a se fazer é sair correndo dela. E foi o que todo mundo fez.


6) Ao final de agosto, o dólar bateu em R$ 4,18, e aí, finalmente, o BC viu que a coisa estava começando a ficar perigosamente fora de controle, e fez um leilão surpresa.


7) Tal medida foi extremamente efetiva para impor um teto ao dólar. Do fim de agosto até meados de novembro, o dólar nunca superou os R$ 4,18. Especulador ficou com medo de comprar dólar a este valor e o BC fazer um leilão surpresa, o que o levaria a perder dinheiro.


8) Ao fim de outubro, com a previdência aprovada no Senado, com as coisas mais calmas, e com a perspectiva de uma grande entrada de dólares para o leilão do pré-sal, o dólar caiu para R$ 3,97 (e a tendência era de mais queda).


9) Mas aí o leilão frustrou as expectativas, e os prometidos dólares não vieram. Para piorar, dois dias depois, Lula foi solto. Junte-se a isso a baderna no Chile, na Bolívia, no Equador, e a situação argentina, e temos que a cotação do dólar, em três dias, saltou de R$ 3,97 para R$ 4,18 (observe que o teto ainda era respeitado).


10) Aí, para ferrar tudo de vez, Guedes vem a público e deixa claro que um dólar a R$ 4,30 "não era problema nenhum". O recado foi claro: comprem dólar sem medo. E aí a coisa desandou geral: o dólar encostou em R$ 4,28, e o BC, muito tarde, fez dois leilões-surpresas (mas a um volume muito baixo). Pelo menos um novo teto foi imposto.


11) Nesta última semana, por causa dos bons números do PIB do terceiro trimestre (muito influenciado pelo excelente mês de julho) e por causa de um renovado otimismo externo, o dólar fechou a R$ 4,14. Parece bom, mas as commodities, em dólares, se encareceram bastante, pois a economia americana continua aquecida e agora há uma boa perspectiva quanto ao fim da guerra comercial.


12) Ou seja, as commodities, em reais, mesmo com a queda do dólar, não baratearam muito (veja aqui). Isso é um problema. O dólar terá de baratear bem mais para que as commodities voltem aos preços de outubro.”



E, para atualizar (para você ver como o Brasil é um país imprevisível; ficar alguns dias sem escrever sobre já te deixa desatualizado), em janeiro viria a encrenca do coronavírus (para os mais preciosistas, vírus da subfamília Orthocoronavirinae), causando então uma baixa nas commodities, e consequentemente o disparo do dólar.


E então, para finalizar isso com uma chave de ouro adulterado, no dia 12 de fevereiro, Paulo Guedes dispara essa na mídia: “Guedes diz que dólar alto é bom: ‘empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa danada”. No mesmo dia, o dólar atingiu a alta histórica do real, pornográficos R$ 4,37. Agora, no dia 14 de fevereiro, está em R$ 4,29.


Com a alta cambial, a própria GM veio a público dizer de que irá aumentar os preços dos carros, diante da alta do dólar (eles já aumentam de todo jeito, já que todo ano os carros aumentam os preços). Podem esperar mais carros caros, depenações, retiradas de itens opcionais e versões. Como o mercado de trabalho brasileiro é extremamente regulado e sem possibilidades de reduções salariais em situações difíceis, uma eventual alta nos custos de aquisição de matérias-primas irá ser repassada em alguma coisa. Se não irá aumentar os preços, irá diminuir o peso dos produtos (preste atenção nos pesos de salgadinhos e barras de chocolate, que foram diminuindo ano a ano), piorar a qualidade dos materiais (materiais de acabamento inferiores, montagem porca). Podem esperar carros com materiais pobres e de péssima montagem (como se isso hoje já não ocorresse). De fazer inveja aos carros feitos em Detroit durante os anos de crise das Big Three.


Não é surpresa alguma de que o real esteja em disparada. Para os iluminados da equipe econômica do governo atual, uma moeda fraca é boa para a economia. Parece algo impensável, mas o discurso de um ministro da economia é extremamente potente. O que você falar, os agentes econômicos já irão entender o recado dado.


Um exemplo são os próprios Estados Unidos.


Paul Volcker, o presidente do Banco Central Americano que serviu nos governos Jimmy Carter e Ronald Reagan, que ficou famoso em detonar a estagflação americana na década de 70 com a pancada nos juros (20% é muito para um americano), advogava em defesa de uma moeda forte. Ronald Reagan, durante a sua campanha, defendia também moeda forte e até mesmo padrão-ouro. Essa defesa aberta da moeda forte, além de reformas feitas no governo Reagan, garantiram de que o índice DXY tenha atingido a alta histórica de 160 em 1985 (hoje está por volta de 99). O Secretário do Tesouro (com função e importância similares ao Ministro da Economia) de Reagan, Donald Regan (legal o sobrenome), também dizia de que uma moeda forte era um voto de confiança à economia dos Estados Unidos. O mesmo seria repetido no governo Bill Clinton. Além de ter feito importantes reformas, o seu secretário Robert Rubin também falava que o dólar forte era interesse dos Estados Unidos. Já no governo Bush filho a conversa era outra. Além de ter levado o país à uma cara guerra no Oriente Médio, ele ainda falava que queria um dólar desvalorizado para competir com a China. Isso obviamente afundou a economia americana (e reelegeu o Lula). O governo Obama colheu os bons frutos quando o seu novo secretário do Tesouro, Jack Lew, falou sobre os benefícios de uma moeda forte (antes a situação estava tão ruim que, com a Dilma, em 2011, o dólar nem chegava a R$ 2).


Por que esse discurso tem tanto poder? Ora, quando o Paulo Guedes fala de que não se importa com um real desvalorizando e, ainda, afirma de que um dólar caro incentiva o turismo nacional (e repetindo discursos vazios), a mensagem que ele traz aos investidores estrangeiros e domésticos é “Não estamos nos importando com o real. Podem comprar dólar.” ou “Real pode afundar e não estamos preocupados com isso. ”


Mesmo o Brasil serve como exemplo também. O Henrique Meirelles, ministro da Fazenda no governo Temer, disse que um câmbio estável favorece muito mais as empresas do que um extremamente volátil.


Em meio à essas turbulências, melhorias paliativas eram feitas, tais como quando o Banco Central ter vendido as suas reservas (fazendo leilões-surpresa com o dólar americano, vendendo por preço menor do que o praticado no mercado). Mas isso não vai mudar, todos já sabem de que toda a equipe econômica não quer uma moeda forte. E notem o seguinte: não precisa necessariamente de o BC intervir para o câmbio se apreciar (o ideal seria ele sumir, mas isso não vai acontecer). Apenas o discurso já teria um efeito extremamente poderoso. É engraçado aparecer pessoas que reclamam da ideia de o BC controlar o câmbio, se dizendo liberais, ao mesmo tempo em que elas defendem o controle dos juros, que nada mais é a taxa SELIC. Por essa lógica, o governo vender as estatais também seria intervenção, já que esse “controle” no câmbio nada mais seria que a venda de dólares na reserva, que são também um ativo. Os leilões-surpresa de dólar nada mais são do que isso.


E então, como o real brasileiro se comportou com relação aos países do mundo? Essa vai ser uma diversão garantida. No dilmismo, já é sabido de que o real desvalorizou até em relação à moeda do Haiti, o gourde.


Mas e agora, com o governo de equipe supostamente liberal, o que mudou?


O real brasileiro pode ser praticamente considerado a moeda que mais se desvalorizou em 2020 (em relação ao dólar americano). Como demonstra a imagem abaixo (que pode ser conferida aqui).



Gráfico vai até o dia 25 de fevereiro de 2020.


Preste atenção na abreviação “YTD”, que em Inglês é “year-to-date”, traduzido para “do começo do ano até hoje”.


Algumas semanas se passaram e até tive que atualizar. O cedi ganês havia se desvalorizado mais que o real brasileiro, mas logo a moeda brasileira passou em capacidade de derretimento. Atualmente, perdemos apenas para o Brent Crude (que é basicamente uma commodity, um índice para medir os preços do petróleo leve) e para o bolívar venezuelano (VEF).


Ou seja, Brasil já perde para esses exemplos de países extremamente civilizados:


- Rand sul-africano (ZAR);

- Rublo de Belarus (BYN);

- Grívnia ucraniana (UAH);

- Peso colombiano (COP);

- Peso argentino (ARS) (!!!);

- Rublo russo (RUB);

- Peso egípcio (EGP);

- Sol peruano (PEN);

- Quiate birmanês (MMK);


A lista é grande, mas só com esses exemplos acima, há a demonstração cabal de que a desvalorização cambial brasileira, salvo o breve governo Temer (até meio de 2018), continua em um patamar extremamente vergonhoso.


Como já é amplamente dito pelos austríacos, uma moeda doente derruba economias. Infelizmente, entretanto, isso está sendo pouco falado, mesmo entre os supostos liberais (e até libertários).


Uma das contestações comuns sobre isso é que essa redução na taxa de juros provocou redução de despesas da dívida com juros.


Vamos lá então.


Essa redução será de R$ 96 bilhões, segundo o próprio Paulo Guedes. Ótimo, menos dinheiro sendo desperdiçado com burocracia. No entanto, um problema: esse valor é quase um terço do que o estado “arrecada” todo mês, ou seja, não irá mudar muita coisa. Outro problema: essa redução na SELIC ainda foi às custas de uma absurda desvalorização da moeda, como já pudemos ver. Ao contrário do que foi feito na equipe Meirelles e Goldfajn, onde a redução ocorreu, mas não levou embora o câmbio (pelo contrário, ele se valorizou e se manteve estável).


Outra encrenca: e os cortes nos impostos? Cadê os cortes nos impostos? Pelo contrário, Paulo Guedes, além de causar estragos com palpite sobre câmbio, defende abertamente mais impostos (e essa piada pronta). É um problema crônico de chicaguista, ao defender desvalorização da moeda e um “imposto eficiente” (só lembrar do estrago que Joaquim Levy fez no segundo mandato de Dilma, e que ainda saiu com a carreira arruinada). Nenhuma proposta concreta de reforma tributária.


Além de essa redução na SELIC arbitrária ter causado esse estrago no câmbio em conjunto com as falas do Paulo Guedes, basta dizer de que os danos à economia que isso causou quase tornam inócuos os efeitos dessa redução de despesas com juros, como será comprovado adiante. Com o câmbio encarecido e mais instável, a atividade econômica cai pois os custos de produção aumentam (e eles não conseguem ser repassados integralmente aos preços de bens e serviços produzidos, mesmo no extremamente regulado setor de postos de combustíveis), além de inviabilizar muitos tipos de investimento, ao desorganizar a contabilidade das empresas. Investimentos de longo prazo são os mais afetados por um câmbio instável e em constante desvalorização. A atividade econômica caindo, a capacidade de “arrecadação” do governo cai junto.


Os juros reais atingiram a mínima histórica, quase negativos (isso não acontecia desde 1984, quando chegaram a 0%). A diferença entre os juros brasileiros e os americanos também está nas mínimas históricas. Atualmente, o México, com IPCA de janeiro de 3,24% e taxa de juros de 7,25%, tem “roubado” os investidores do Brasil. O país elegeu o esquerdista Andrés Manuel López Obrador (normalmente se usa a sigla “AMLO”), em 2018. E sim, o real brasileiro, com um governo “de direita”, desvalorizou mais do que o peso mexicano, com um governo de esquerda. Aliás, não desvalorizou, o peso mexicano se valorizou em relação ao dólar americano nos últimos 17 meses. O país agora tem sido um atrativo de investimentos de carry trade. Carry trade nada mais é do que você pegar dinheiro emprestado de países com juros historicamente baixos (como o Japão) e aplicar em títulos de países com juros maiores (como quase sempre foi o Brasil). Os ganhos então vêm com a diferença desses juros. Com menos gente disposta a financiar as dívidas do governo, a tendência é que o governo, por sua vez, tenha de elevar novamente a taxa SELIC, até o ponto em que isso volte a ser atrativo. Como a inflação está voltando a subir (embora de maneira lenta, o que será falado logo adiante), então em algum momento eles irão fazer isso. Com essa elevação dos juros, toda a economia é distorcida, de forma que qualquer pessoa que vá tomar empréstimo, acabará tendo que pagar mais nas taxas de juros. Por isso que o Banco Central jamais deve controlar os juros pois, de um jeito ou de outro, alguma distorção irá ser causada.


Outra coisa comumente falada é que essa redução nos juros vai atacar o “rentismo” (inclusive supostos liberais defenderam essa tese). Para começar, qual rentismo? Não há investimentos produtivos sem os poupadores – aqueles que se abstém de consumir -, então isso é só mais um ataque. Nesse ponto, não é nada diferente de Ciro Gomes. Quem gera crédito é quem se abstém de consumir e então empresta e quer ganhar juros com isso. Há os que se arriscam mais, e os que se arriscam menos. O que é o rentismo que eles definem? Qual é o crime? E tem outra coisa: dado de que o Brasil sempre teve um histórico intervencionista, de moedas fracas, calotes e insegurança jurídica, é óbvio que isso vai ser incentivado (se for falar de, por exemplo, aplicar em títulos do Tesouro Direto e viver às custas de todo mundo com os juros). Para que emprestar dinheiro para um cara que tem altas chances de me dar calote, se eu posso emprestar para o governo?


Em suma, a culpa não é dos rentistas: a culpa é do governo, que não consegue se financiar sem se endividar. Se o governo não se endividasse, não existiria a emissão de títulos de dívida. Os rentistas simplesmente evaporariam.


Não é você reduzindo juros na marra, de que esses “rentistas” de repente irão começar a emprestar dinheiro para futuros fundadores de concorrentes de KFC, Amazon, Publix e afins. O ambiente de negócios no Brasil pouco mudou e, em alguns pontos, até piorou, ao considerar essa desvalorização cambial. A instabilidade cambial nada mais é que um custo para os empreendedores.


O que aconteceu, na prática, foi outro tipo de rentismo: o dólar.


Quem investiu em fundos cambiais (que são atrelados a moedas fortes como o dólar americano) de julho do ano passado até o momento, já teve um rendimento de pelo menos 16%, ou seja, mais do que na SELIC de 14,25% com Dilma). Na prática, foi trocado um rentismo por outro (aconteceu isso em 2011).


Isso é o que explica essa fuga de capitais, conforme gráfico abaixo:


Essas notícias abaixo resumem a encrenca:


- “Estrangeiro já retirou da bolsa em 2020 metade do que foi embora 2019.”

- “Saída de estrangeiro da bolsa é a maior da história para meses de janeiro”


Ou seja, menos investimentos.



Crescimento medíocre e, em alguns casos, retração.


Apesar de o Brasil ter nas commodities uma parcela considerável do PIB, a indústria continua tendo bastante relevância (em parte graças ao protecionismo, o que pode ser discutido em outro artigo).


Vamos analisar então como a indústria se comportou. Primeiro, o gráfico mais amplo de 31 de agosto de 2016 (posse de Temer) até dezembro de 2019, para comparação.


Gráfico vai de 31 de agosto de 2016 (posse de Temer) até dezembro de 2019. Essa queda e subida bruscas em 2018 foram causadas pela greve dos caminhoneiros.


Eis o gráfico detalhado do ano passado.



Como dito antes, a desvalorização do real começou depois de fevereiro, mas ela começou a parar depois de junho. Em julho seria o maior crescimento, quando o dólar atingiu a baixa de R$ 3,71. O que deve explicar essa absurda queda em março foi a desvalorização cambial (o dólar foi, de fevereiro a março, R$ 3,76 a R$ 3,90).


E desabou em novembro e dezembro, mais do que anulando aquele crescimento ocorrido de agosto a outubro, exatamente quando o real volta a afundar.


Peguemos essa notícia e, então, transcrevamos parte dela e em negrito os destaques:


Fraco desempenho da indústria mostra fragilidade da economia brasileira

Das seis variáveis levantadas pela CNI, cinco apresentaram queda, entre as quais o faturamento do setor. Para o Dieese, indicadores expõem falta de um projeto de desenvolvimento robusto

[...]


Indicadores mostram um fraco desempenho da indústria brasileira em 2019, de acordo com levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgado nesta segunda-feira (3). Os dados apontam queda em cinco das seis variáveis consideradas pela entidade, entre elas o faturamento real do setor, que caiu 0,8% na comparação com 2018. Uma situação de “quase estagnação da atividade industrial”, segundo o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, em sua coluna na Rádio Brasil Atual.


A massa real de salários caiu 1,9%, assim como o rendimento médio real do trabalhador, que recuou 1,5%. As horas trabalhadas na produção também despencaram 0,5% e o emprego apresentou uma queda de 0,3%. Apenas a produção industrial registrou alta na comparação com 2018, mas não o suficiente para ter uma repercussão positiva sobre o emprego e faturamento, como aponta a nota da entidade.


‘E as nossas exportações de bens manufaturados, produzidos pela indústria, também está muito fragilizada, em queda, perdendo participação para a exportação primária, de grãos, minérios. Ou seja, ao invés de exportarmos produtos industrializados, pela capacidade de transformação da nossa indústria, nós estamos exportando produtos primários e a indústria que está transformando esse produto primário é a indústria de outros países que importam os nossos produtos’, afirma o diretor técnico à jornalista Marilu Cabañas.”



É óbvio: a desvalorização cambial encarece os custos para as indústrias. Toda indústria que preste, precisa importar insumos, incluindo bens de capital, que são os que aumentam a produtividade. Brasil tem uma participação relevante na indústria, mas não é uma autarquia. Especialmente nos tempos atuais de globalização, não existe uma forma de um país ser totalmente “autônomo” e viver de subsistência. É por essa razão que a indústria de carros brasileira afundou na década de 80, ficando estagnada até a vinda do Plano Real. Quanto mais desvalorizada é a moeda, mais arriscados se tornam investimentos de longo prazo (por exemplo as indústrias), pois uma moeda nessa situação torna investimentos desse tipo muito arriscados. Milagre foi ter surgido carros avançados à época como o Chevrolet Monza (isso deve explicar o motivo de ele ter sido o carro mais vendido do país por algum tempo), apesar de ocorrido em 1982 (quando a hiperinflação ainda não havia chegado ao topo).


Mas se a inflação de preços é quase que comandada pelo dólar americano, por que ainda não disparou? As coisas não são simples assim. Os preços na economia não giram apenas em torno dos preços da gasolina nos EUA, que oscilam a cada segundo. Os repasses de custos maiores são feitos, mas com cautela, pois sempre há o temor de o empreendedor perder clientes por algum aumento nos custos. A acentuada desvalorização cambial começou no fim do ano último, então lembrem-se disso.


No entanto, o gráfico abaixo pode nos mostrar algo interessante:



Notem de que a inflação disparou no fim do ano. Ou seja, em dezembro, a inflação de preços foi de 4,31% em relação a dezembro do ano anterior (de 2018). Essa metodologia envolve o IPCA, ou seja, ela vai misturar preços livres (bens de supermercado, serviços de encanamento, etc.) e preços tabelados (energia, planos de saúde e afins), o que pode gerar uma aparente baixa inflação. Levando em conta de que o ano de 2019 foi pífio em crescimento econômico (o qual será abordado logo adiante), sim, a inflação foi alta.


Agora, se pegar por inflação mensal, temos este resultado:



Note que a inflação disparou em dezembro


Prova empírica de que a inflação é fortemente influenciada pela desvalorização cambial. O que não piorou é o fato de que a farra dos bancos estatais, por ora, não voltou. Essa inflação mensal foi o maior nível desde junho de 2018 (gráfico do ano de 2018 abaixo), quando a greve dos caminhoneiros ocorreu, com direito a desabastecimento e muita baderna. Ou seja, a desvalorização cambial foi tão aguda de que ela causou estrago parecido com a greve dos caminhoneiros.



Inflação mensal disparou em junho, mas logo caiu


Descontando a greve dos caminhoneiros, não se via algo similar desde março de 2015, ou seja, desde a época do dilmismo. Uma proeza.


Agora, eis o gráfico de inflação acumulada de 12 meses do ano de 2018.


O problema começou, como previsto, em junho.


Além do fator cambial e das greves dos caminhoneiros, foi em 2018 que a taxa SELIC caiu (e Meirelles inventou moda e quis se candidatar) ao mesmo tempo em que a taxa de juros americana subia, tirando a atratividade de se investir nos títulos brasileiros (o que foi falado no início do artigo). Eis os gráficos, agora, de 2017.


Inflação de preços mensal em 2017.


Inflação de preços acumulada em 2017. Note de que em alguns meses houve taxas de países desenvolvidos.


Se usarmos uma outra metodologia, que é o IGP-M (Índice Geral de Preços no Mercado), as coisas ficam pavorosas: quase 8% nesse mês de janeiro. Detalhe que esse índice sofre influência maior das commodities e do dólar do que o IPCA, de maneira que nessa conta entra até os preços dos aluguéis e da energia elétrica (ou seja, atingindo os mais pobres). Uma taxa pornográfica para uma economia quase que estagnada e sem uma grande expansão monetária (que é o que permite que os preços possam ser aumentados, exatamente o que aconteceu durante a era petista), e com taxa de desemprego quase imóvel. E com renda estagnada.


Além da inflação de preços, a desvalorização cambial interferiu até no crescimento econômico (sugestão de leitura aqui), o qual iremos abordar agora. Sobre o setor industrial já foi falado, mas e os demais setores?



Moeda afunda, economia vai junto


Em 2017 o PIB trimestral encerrou com crescimento de 2,4%. Em 2018, 1,2%. Com câmbio relativamente estável e mais valorizado do que no governo Dilma (lembre-se de que a redução na SELIC começou antes, e não precisou afundar o câmbio junto). Sem ministro falando besteira sobre câmbio (e o Meirelles nunca foi economista, e sim engenheiro).


Está previsto de que o crescimento do ano passado, segundo o IBC-Br (índice do Banco Central), foi de 0,89% (ainda não saiu os dados do último trimestre). Confirmando ou não, o fato é de que é um crescimento broxante.


O setor do varejo, que geralmente cresce no fim do ano, recuou 0,01% (estava previsto crescimento de 0,2%), e isso em um ano com liberações em saques do FGTS. A Páscoa desse ano vai ser divertida, no pior sentido do termo. Esperem ovos mais caros (e provavelmente com peso menor).


Agora uma outra notícia, de assunto praticamente igual, mas com alguns trechos que chamam atenção (que irei destacar em negrito):


Varejo recua em dezembro após 7 meses de alta; avanço anual decepciona

As vendas varejistas encerraram 2019 com ganho de 1,8%, o ritmo mais fraco em três anos seguidos de altas


O varejo brasileiro terminou 2019 com crescimento pelo terceiro ano seguido, mesmo depois de as vendas arrefecerem em dezembro, interrompendo sete meses seguidos de alta.


O aumento das vendas no ano passado, porém, foi o mais fraco do triênio.

Em dezembro, o volume de vendas no varejo caiu 0,1% [aqui fala 0,1%, na outra notícia, 0,01%] na comparação com novembro, primeira queda na base mensal desde maio.


Em relação a dezembro de 2018, as vendas tiveram avanço de 2,6%, de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira.


Os resultados foram mais fracos do que as expectativas em pesquisa da Reuters, de alta de 0,2% na comparação mensal e de 3,5% sobre um ano antes.


Com isso, as vendas varejistas encerraram 2019 com ganho de 1,8%, o ritmo mais fraco em três anos seguidos de altas –2,3% em 2018 e 2,1% em 2017.


O varejo foi mostrando impulso ao longo de 2019, mas perdeu força no final do ano. Começou com estabilidade no primeiro trimestre e cresceu 0,2% no segundo e 1,6% no terceiro. Mas desacelerou o ritmo nos últimos três meses do ano, com alta de 1,2%.

[...]


Em dezembro ante novembro, as quedas mais significativas aconteceram em Supermercados (-1,2%), Artigos farmacêuticos (-2,0%) e tecidos, vestuário e calçados (-1,0%). Apenas dois setores tiveram aumento nas vendas no período: Móveis e eletrodomésticos (3,4%) e Livros, jornais, revistas e papelaria (11,6%).

[...]”



Resumindo, embora tenha havido crescimento ao longo do ano (pode ler toda a notícia, lhe espero), foi no fim do ano que esse crescimento foi arrefecido, justamente quando o câmbio afundou.


O negócio foi tão grave que a própria mídia tradicional (neste caso o G1 e a BBC) fez uma matéria com a seguinte chamada (negritos meus). Abordarei a parte industrial mais uma vez só para ser mais didático e claro. Vou mostrar apenas alguns trechos, pois senão ficaria ainda maior (leia na íntegra, por favor):


Década perdida: por que, mesmo com juro baixo e dólar alto, a indústria brasileira continua em recessão?


Desde que o dólar começou a subir, em meados do ano passado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem repetido que o câmbio desvalorizado é o "novo normal" no Brasil.


Mais que isso, disse que ‘é bom pra todo mundo’ — como ressaltou no episódio polêmico em que comentou que o último ciclo de real forte ‘era uma festa danada’, com ‘empregada doméstica indo para a Disney’.

O dólar ultrapassou a barreira de R$ 4 em meados de agosto do ano passado e, desde então, poucas vezes recuou desse patamar. Pelo contrário, nas últimas semanas ele tem batido recordes e chegou a R$ 4,39 no pregão de quinta (20/02).


Para a indústria, entretanto, que em tese se beneficiaria do câmbio desvalorizado — que deixaria os produtos brasileiros mais baratos lá fora —, o dólar mais caro não impediu que a produção recuasse em 2019.


A queda de 1,1% levou a produção industrial ao mesmo nível registrado em junho de 2004, 15 anos atrás, de acordo com os cálculos do economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs.


No acumulado entre 2011 e 2019, a queda é de quase 15%.

[...]


Dólar alto ajuda ou atrapalha?


[...]


A indústria brasileira exporta pouco. Mais da metade de tudo o que o Brasil vende para fora são produtos básicos — 52% em 2019. Outros 12,6% são semimanufaturados e 34,5%, manufaturados.


Em contrapartida, o setor tem importado cada vez mais. Se não produtos acabados, partes e peças que vão compor as mercadorias.


[...]


Isso quer dizer que, para parte da indústria, o dólar mais caro representa um aumento de custos.


É o caso, por exemplo, de uma das maiores empresas de eletrodomésticos brasileiras, a Mondial.


Os importados representam cerca de 40% do que a marca comercializa, diz Giovanni Marins Cardoso, sócio fundador da companhia. Além disso, a moeda americana afeta direta ou indiretamente os preços de cerca de 80% da matéria-prima utilizada na linha de produção.


‘Então eu prefiro o dólar mais baixo’, diz o empresário.


A Mondial tem centros de desenvolvimento de produtos dentro e fora do Brasil — dois na China, nas cidades de Guangzhou e Ningbo.


[...]


"Sempre que a Mondial vai lançar um produto novo, a gente se pergunta: é viável produzir no Brasil? Se não for, produzimos lá fora."


Ao contrário de boa parte do setor, a fabricante não viu o faturamento cair durante a crise — segundo Cardoso, as vendas crescem de forma contínua desde a fundação, no ano 2000, em parte porque a marca vem ganhando mais participação no mercado.



Uma barreira contra os importados


Já a Toledo do Brasil, líder no mercado de balanças, viveu cada uma das etapas do ciclo de recessão — e tem conseguido se recuperar.


[...]


Cerca de 40% de tudo o que a fábrica consome é importado. Assim, a desvalorização do real também acaba elevando o custo dos produtos.

Ainda assim, Freire afirma que o ‘câmbio um pouco depreciado é bom’, porque onera os produtos importados — e o mercado de balanças enfrenta forte concorrência de mercadorias vindas de fora.

[...]”



Em suma: um real mais desvalorizado irá prejudicar os setores industriais, mas pode beneficiar certas categorias que são mais expostas à concorrência de importados. Uma moeda fraca é o subsídio de certos setores às custas de toda a população, principalmente a mais pobre. O que impressiona é que mesmo com tantas evidências empíricas e que puderam ser sentidas, muita gente (inclusive supostos liberais) ainda acha que um câmbio desvalorizado vai fazer surgir uma Gurgel com carros de qualidade invejáveis aos alemães, americanos, coreanos e japoneses.


O título da notícia acima ficou até bom, eu quase achei que quem escreveu a notícia fosse algum austro-libertário. Pulei as demais partes pois elas não possuem relevância (tais como a que diz que as exportações não foram afetadas pelo câmbio, o que é falso).


Notem que de 2011 a 2019, onde ocorreu essa queda na indústria, foi justamente o período de desvalorização cambial. Em 2011, com Dilma no poder, até algum tempo, o dólar estava barato, mas isso não durou muito, e ele começou a subir, conforme imagem abaixo (depois de julho; o gráfico veio daqui):



Com o estrago já feito, então só o fato de ter ocorrido mais uma redução na taxa SELIC nesse mês de fevereiro (para 4,25% ao ano), não irá mudar nada. O que é uma brisa diante de um furacão?


E como foi o crescimento de países vizinhos? Afinal, eles também sofreram com a instabilidade política no ano passado, sentindo mais até do que o próprio Brasil.


Vamos recapitular: Brasil cresceu, no terceiro trimestre de 2019 em relação ao trimestre anterior, 1,2%. Inflação fechou janeiro deste ano de 2020 em 4,19%.


Chile, que passou por aquela verdadeira bagunça no ano passado, cresceu, no terceiro trimestre, 3,3% (e olhem que já foi melhor). Inflação fechou janeiro em 3,5%, alta para os padrões de lá.


Bolívia, que também passou por distúrbios, conseguiu ser melhor: 2,34%. A inflação foi melhor até do que a do Chile: 1,21%.


Colômbia, cresceu 3,5% no mesmo período (saiu até os últimos dados). Inflação, 3,62%.


Peru, 3,2%. Inflação, 1,89%.


Paraguai, 2,8% (embora tenha havido quedas consideráveis no ano, note de como a economia do país cresceu substancialmente nos períodos anteriores). Inflação, 2,8%.


Quem foi pior que o Brasil foi o Equador, que teve a sua economia recuada em 0,1%. Apesar disso, o mês de janeiro teve uma deflação de preços de 0,3% (deve haver relação com o fato de eles usarem o dólar americano como moeda corrente). Vale lembrar que no Equador houve uma bagunça generalizada na economia, quando a economia local, acostumada à décadas de subsídios nos combustíveis, foi afetada pela retirada dessa boquinha governamental (o preço do óleo diesel dobrou, o da gasolina subiu 25%).


Esse fenômeno da economia recuar junto com os preços é algo que normalmente acontecia no regime de padrão-ouro, mesmo no sistema gambiarra que existiu no mundo durante o século passado (exemplos: Estados Unidos, Bélgica, Canadá, Suíça e Alemanha) . Ao passo que a economia recuar é ruim, uma deflação de preços ameniza esses efeitos, pois permite que em tempos mais difíceis, as pessoas sofram menos com problemas como, por exemplo, o desemprego.


Nos dias atuais, isso tem ficado cada vez mais difícil. Mas algumas exceções ainda existiram, como no Japão (gráfico dos últimos 25 anos aqui).


Agora você sabe a capacidade que um câmbio em constante desvalorização (ou melhor, em constante afundamento) faz com uma economia.


Vale repetir: a Páscoa desse ano vai trazer muitas surpresas. Aguardem.



Mas e o Ibovespa, não está indo bem? Estrangeiros não estão investindo direto no Brasil, adoidados?


Muitos defensores do atual governo têm repetido que o Ibovespa tem subido bastante com a entrada do governo Bolsonaro. Então, eis o gráfico abaixo sobre o desempenho da bolsa:


Gráfico que vai de meados de 2000 até fevereiro de 2020


Ao analisar o gráfico, notem de que os níveis atuais estão quase os mesmos de março de 2018, agosto de 2014, abril de 2013, abril de 2009, agosto de 2008 e abril de 2007. E pior: quem aplicou em 2018, na prática, já perdeu dinheiro. Sabendo disso, muitas pessoas caíram fora.


Outra notícia comumente propagada é que o Brasil saltou da 9ª para a 4ª posição em investimento estrangeiro. O salto ocorrido em relação ao ano de 2018 se deve, obviamente, ao fato de que aquele ano era eleitoral e havia um sério risco de o PT voltar ao poder. A manchete também é muito boa, mas olhando em detalhes, a média quase não mudou, o que é mostrado pelo registro abaixo:



Além disso, uma coisa é um país continental perder para China e Estados Unidos. Mas perder para Cingapura?


O tamanho de Cingapura comparado ao Brasil é isso (usei esse site):


Esse “tiquinho” dentro do círculo vermelho é o tamanho de Cingapura.


Agora dando mais zoom. Essa é a área de Cingapura comparada.


Atualmente a sua população é de 5,9 milhões de habitantes. Isso é menos da metade da população da cidade de São Paulo (que é de atualmente 12,17 milhões de habitantes). A área da cidade-estado é de 719 km², ao passo que a área na capital paulista é mais que o dobro, com 1521 km².


De fato, ainda há muito para o Brasil avançar.



De novo a carne?


Mais recentemente, exatamente em 21 de fevereiro deste ano de 2020, a exportação de carne brasileira voltou a ser liberada para os Estados Unidos (estava proibida desde 2017, quando estourou aquele cômico escândalo envolvendo a JBS).


Podem se preparar: vai ter carne mais cara no mercado interno.


Como o real é naturalmente uma moeda ruim, tanto com essa acentuada desvalorização, quanto com mensagens do Banco Central Brasileiro – como se eles dissessem “Comprem dólar à vontade, não nos importamos em proteger a nossa moeda” - então os exportadores irão preferir exportar bens primários (como carnes) para adquirir uma moeda mais forte. Isso já aconteceu em 2015, não tem motivo de isso não ocorrer novamente. Por que eu deveria ficar preso à uma porcaria de moeda, se posso vender algo para o estrangeiro e conseguir uma moeda de melhor qualidade?


Na prática, os brasileiros estão subsidiando mais qualidade de vida para os americanos, já que as carnes exportadas possuem qualidade superior e nos EUA o mercado é mais competitivo. Você não vai conseguir vender carnes porcarias para uma população de maior renda e inserida em um mercado mais concorrencial.


Então, assim sendo, deveríamos proibir a exportação? Claro que não! Isso não apenas não resolveria o problema, mas também causaria uma cadeia de outros problemas (como dito neste comentário).


Para lidar com isso, somente com moeda forte e abertura comercial.



Concluindo...


Apesar de o Jair Bolsonaro estar lotado de boas intenções, ter havido importantes avanços nas reformas (mesmo aquelas reformas mixurucas), a parte do câmbio não apenas está terrível, como também até causa saudades de dólar sendo vendido a R$ 3,10.


Anotem: a não ser que o Paulo Guedes mude de ideia, se preparem para um aumento geral no custo de vida, incluindo os preços dos combustíveis (o que eles irão fazer com caminhoneiros mal-humorados?). A recuperação irá ocorrer, mas continuará sendo em ritmo de tartaruga.


Tenho certeza de que há projetos bons para desburocratizar a economia brasileira nesse ano (o Geanluca Lorenzon pensa em aprimorar a MP 881, e até fez um diagnóstico muito bom dos problemas internos na estrutura burocrática brasileira), no entanto, se não corrigirem essa geringonça cambial, não é que a economia brasileira vai deixar de crescer (ela pode crescer até mais nesse ano, já que algumas reformas foram passadas no ano anterior e elas demoram para dar resultado), mas ela entrará naquilo que Bastiat já disse em “o que se vê e o que não se vê”, daquilo que poderíamos ter tido, caso o câmbio estivesse mais estável e mais valorizado. Uma outra coisa que o câmbio irá afetar será a viabilidade das empresas aéreas de baixo custo, que recentemente chegaram no país. Afinal, se o dólar encarece, vai afetar o querosene, que é cotado em dólar (já que é derivado de petróleo). Há um projeto bom para reduzir custo de querosene, vejamos.


Agora, um alerta: embora o coronavirus provavelmente não vá fazer uma matança em massa como ocorreu na Gripe Espanhola, ele pode adiantar uma desorganização na economia mundial e, caso a recessão estoure nos EUA nesse ano, dólar a R$ 5 estará barato pois, por mais contraditório que pareça, em situações de muito risco (como até na guerra comercial contra a China), muitas pessoas irão migrar para títulos considerados seguros, entre eles o do governo americano, já que é o único país desenvolvido do mundo onde a taxa de juros ainda é positiva.


E, para encerrar de vez, novamente, um trecho do Leandro Roque (que vem daqui):


“[...]

6) Aí agora entrou uma equipe econômica chicaguista e neoclássica e, de diferente, ela só tem a mostrar o enfraquecimento da moeda (que, na prática, significa uma brutal redução no salário da população). O crescimento econômico já estava contratado no governo Temer, mas foi abortado pela greve dos caminhoneiros e pela incerteza eleitoral; a reforma da previdência foi obra do Congresso e se baseou no aumento de impostos sobre a renda (a medida do INSS vai aumentar a partir de março do ano que vem); e a CPMF só não foi recriada agora porque houve gritaria. O 'liberal' Guedes em momento algum falou em reduzir o IOF de 6,50% sobre o câmbio, taxa essa criada por Guido Mantega no governo Dilma. No governo Lula, essa taxa era de 0,38%. Isso é vergonhoso.


7) As coisas boas do atual governo ou já vieram prontas do governo anterior (reforma trabalhista, teto de gastos e encolhimento dos bancos estatais, por exemplo) ou foram feitas fora de Chicago: a MP da liberdade econômica foi toda ela escrita pelo Geanluca Lorenzon (egresso daqui) e o Ministério da Infraestrutura é puramente técnico (comandado por engenheiros do IME). O Banco Central, por outro lado, é pavoroso. E sob o completo controle de Chicago.


8) Por fim, vale ressaltar que a atual equipe econômica de fato fez algo meritório: reduziu bastante algumas tarifas de importação sobre bens de capital. No entanto, de nada adiantou, pois a moeda derreteu (aliás, creio que reduziram as tarifas exatamente porque já tinham a intenção de deixar a moeda desvalorizar impiedosamente).


Para resumir: em todos as áreas em que os keynesianos/chicaguistas/neoclássicos se intrometeram, a coisa desandou (exatamente como a EA sempre disse que ocorreria). Onde as coisas melhoraram? Naquelas áreas das quais eles ficaram longe.


[...]


P.S.: apesar de tudo isso, não me entenda mal: sim, a economia vai crescer e a situação vai melhorar, mas isso aconteceria como que por gravidade. A década de 2010 foi perdida, e qualquer coisa agora fará a economia crescer. Só é lamentável que este crescimento esteja sendo engendrado via desvalorização, que nada mais é do que uma prática retirada diretamente do manual desenvolvimentista.


Fosse feita uma reforma genuinamente supply-side, a moeda seria estabilizada perante uma cesta de commodities, os juros seriam livres e toda a produção seria desonerada (a MP da liberdade econômica vai nessa direção). Com as barreiras governamentais retiradas de cena (moeda instável, regulações, restrições ao livre comércio e burocracia), todo o crescimento ocorreria de forma robusta. E com a população com poder de compra. E isso não é teoria. Foi feito nos governos Reagan e Clinton. Imitar o que comprovadamente deu certo -- em vez de ficar ressuscitando teorias desenvolvimentistas fracassadas -- já seria um monumental avanço.”


Agradecimentos profundos ao Leandro Augusto Gomes Roque, que foi por onde tirei uma parte considerável das informações para elaborar este artigo, assim como à todas as demais pessoas nas seções de comentários do Mises Brasil que me tiraram as dúvidas.

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© 2018  por Felipe Lange. Orgulhosamente criado com Wix.com

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