A economia real não cabe num post de LinkedIn
- Felipe Lange
- 10 de fev.
- 41 min de leitura
Resposta à Giovanna Mel
Felipe Lange

Se o LinkedIn não é o local esperado para se realizar discussões e debates profundos e sim uma rede voltada ao profissional e aos contatos (e aqui não é um ataque ao LinkedIn, só para deixar claro, até porque sei da relevância que tem a rede), o fato é que a postagem da Giovanna Mel de alguns meses atrás (isto é, do ano passado), embora tenha tido certa repercussão, ele é cheio de vícios, ao mesmo tempo em que ecoa o que algumas outras pessoas postam em redes como o X(1) (felizmente eu já pulei fora do X faz tempo).
Como sempre faço aqui, quando respondo outras pessoas: sem ataques pessoais e respeito mútuo. Eu também peço que você não faça isso nem com ela e nem com ninguém. Aqui vai ser um confronto de ideias, que é o que importa, no final das contas.
Também, eu sei um pouco da história de vida dela (e que foi muito dura), até porque eu até fiz uma brevíssima menção disso lá na seção de comentários do próprio LinkedIn, ao responder o comentário de outra pessoa ali. Eu mesmo já acompanhei algumas postagens dela e tem postagens dela que são tão valiosas, que eu até guardei alguns de seus Stories, para eu ver depois. A sua trajetória de sucesso em uma idade jovem é uma das coisas mais impressionantes neste começo de século no Brasil, e não deve ser menosprezada. Só que isso não quer dizer que ela não possa estar errada em algum momento na vida, inclusive quando ela decide fazer alguma postagem.
"Mas você 'tá' falando de que, Felipe?"
A sua postagem é basicamente uma menção aos "nem-nem", e ela é cheia de problemas, como eu vou mostrar nos próximos parágrafos. Obviamente, antes temos de saber o que ela escreveu. Então, vamos lá.
E, atenção: vou acabar sendo acometido pela Lei de Brandolini.
Abaixo, o inteiro teor também em código Hypertext Markup Language (HTML):
Os injustiçados
Os dois primeiros parágrafos dela mostram um fato e uma opinião. Os dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostram os 24 % dos jovens que não estudam, não trabalham e nem estão em qualificação profissional (para a sigla em Inglês, trata-se do NEET, "Not in Education, Employment, or Training"). Esse relatório da OCDE tem 542 páginas, estando em Língua Inglesa. Embora houvesse planos para o Brasil fazer parte da OCDE sob o governo Bolsonaro com a aceleração dos trâmites, o atual governo Lula demonstra resistência em fazer parte (haja vista os aumentos no Imposto sobre Operações Financeiras).
Na definição do "nem-nem" pela OCDE, seria (traduzido para o Português):
"Jovens que não estudam, não trabalham e não estão em formação (NEET, na sigla em inglês) referem-se à parcela de jovens que não estão envolvidos em nenhuma forma de emprego, educação formal ou atividades de formação. Isso inclui indivíduos desempregados ou inativos que não participam de educação ou formação. Educação abrange programas formais em tempo parcial ou integral, excluindo atividades educacionais não formais e de curta duração. Emprego segue as definições da OCDE/OIT e inclui qualquer pessoa que tenha trabalhado pelo menos uma hora remunerada durante a semana de referência ou que tenha se ausentado temporariamente do trabalho. Este indicador é expresso como uma porcentagem da população dentro da faixa etária selecionada."
Problema seríssimo, este fenômeno, ainda em setembro de 2014, foi abordado pelo economista Leandro Roque na 4ª Conferência de Escola Austríaca. Só que aqui podemos ter divergências nos dados, afinal ele mostrou os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que tem adaptações e metodologias próprios. O IBGE inclui entre os "nem-nem" aqueles que não estão sequer procurando emprego. De qualquer forma, ele afirma que isso preocupa também pelo fato de que, na faixa etária de 25 a 29 anos, considerada a faixa de idade com maior produtividade, onde também se mostrou um alto percentual de "nem-nem". E quando a pessoa não está procurando por trabalho, isso não pressiona as estatísticas de desemprego. Além disso, isso só pode ser compensado pelo aumento da produtividade, afinal isso é aumento na produção de bens e serviços. Então, quando ocorre esse aumento da produtividade, não há um problema per se em termos econômicos quando se fala de um baixo crescimento da mão de obra. Quando há esse baixo crescimento da oferta de mão de obra, há uma tendência baixista na oferta de bens e serviços, tendendo a reduzir o crescimento econômico e o processo de enriquecimento. E isso é bastante preocupante, pois o Brasil já passou da fase do bônus demográfico (2010 a 2020), então o aumento da produção econômica tende a ser retardado, pois o crescimento da população jovem está diminuindo.
Todavia, vamos ater à essa faixa de 18 a 24 anos. Os dados da OCDE englobam justamente o ano de 2024 (mas, para o Brasil, o ano mais recente abordado foi de 2023). Não obstante a cifra alta de 24 %, ela apresentou uma queda importante: em seis pontos percentuais (em 2019, era de 30 %), ou em termos percentuais, 20 %. Essa queda pode estar relacionada àquilo que eu escrevi ainda em 2021, ou seja, dificilmente tem alguma relação com mudança de mindset, insight ou seja qual palavra de efeito você quiser usar (e esse meu artigo acabou se tornando este, publicado no IMB (2)). E, ainda: se pegarmos os dados do IBGE num histórico recente, houve aumento na geração "nem-nem" de 2014 para 2015. O que houve nesse período? A maior crise econômica brasileira desde a década de 1930.
Ao analisar os dados da OCDE, que são os que a Giovanna pontuou, a primeira menção direta ao "nem-nem" aparece no Education at a Glance de 2008 (página 382 no Portable Document Format), mas sem alusão ao Brasil. O Brasil aparece pela primeira vez na edição de 2009, quando já tem estatísticas, cobrindo o ano de 2007 (página 352). Neste caso, a tabela é "Percentual da população jovem que está estudando e que não está estudando". Ao que consta, as diferenças entre a categoria de "desempregado" e "fora da força de trabalho" englobam o fato de que a pessoa desempregada está procurando por trabalho, ao passo que a pessoa que está fora da força de trabalho não está procurando por trabalho (página 345), por diferentes razões. Mas, vou incluir também os desempregados na lista.
Entre 15 e 19 anos: 4,1 % (não estuda e está desempregado) e 10,6 % (nem estuda nem está procurando por emprego)
Entre 20 e 24 anos: 8,2 % (não estuda e está desempregado) e 15,2 % (nem estuda nem está procurando por emprego)
Entre 25 e 29 anos: 6,6 % (não estuda e está desempregado) e 15,2 % (nem estuda nem está procurando por emprego)
Se comparado a outros países na lista, o Brasil está numa má posição, ainda mais que 2007 foi um bom ano para o país em termos macroeconômicos (assim como os anos anteriores, à partir de 2004, que garantiram a reeleição de Lula). O fenômeno consegue persistir de alguma forma mesmo quando há algum sinal de pujança econômica.
Voltando à edição mais recente do Education at a Glance (de 2025), a seção que se fala sobre a transição do ensino para o mercado começa na página 68. Já na página seguinte, tem-se o gráfico mostrando os chamados NEET. Curiosamente, para chegar aos quase 25 %, eles colocaram junto o fato de a pessoa estar desempregada e ela estar fora da força de trabalho (se for colocar "apenas" a pessoa não estar procurando trabalho, o percentual cai para pouco mais de 15 %). Embora sejam casos com consequências iguais, de não estar desempenhando uma atividade remunerada, possuem algumas diferenças. Se o Brasil já assusta com os quase 25 %, a África do Sul passa dos 45 % (por volta de 25 % fora da força de trabalho) e a Turquia fica pouco acima dos 30 % (pouco abaixo dos 25 % fora da força de trabalho). Nos Estados Unidos, onde estão um dos setores de mercado de trabalho mais livres do mundo, a cifra cai para totais de pouco abaixo dos 15 % (por volta de 10 % fora da força de trabalho). O melhor é a Islândia (terra da Björk Guðmundsdóttir), ao redor de 5 %, somando desempregados e pessoas que não procuram emprego, embora seja um país bem pequeno em termos populacionais (menor que a cidade de Ribeirão Preto), então com menor oferta de bens e serviços (o que tende a diminuir a oferta de empregos). Notas importantes (ver página 77): nem todos os dados ali englobaram o ano de 2024, que seria o mais recente. Então, o Chile seria o ano de 2022, o Brasil o ano de 2023 (o mesmo ano para Islândia e Estados Unidos).
Indo à página 70 (que já analisa a tendência dos NEET de um ano de referência em relação a outro), chama a atenção não apenas a queda dos NEET no Brasil (desempregados e pessoas que estão fora da força de trabalho), mas o aumento desse fenômeno em outros países. Entre os emergentes, o Brasil teve a maior queda (de aproximados 30 % para pouco menos de 25 %), junto com o Chile (de pouco mais de 25 % para pouco abaixo dos 20 %), muito embora o Chile já tenha algumas características de um país desenvolvido. Como notas dadas (também na página 77), os anos abordados tanto para o Chile quanto para o Brasil não foram os mesmos dos demais (outros países foram também mencionados, mas aqui cito apenas o Chile e o Brasil): os dados mais atuais até aquele momento para o Brasil seriam de 2023 ao invés de 2024 e, no caso chileno, seriam referentes ao ano de 2022. Ao invés de ser 2019 como nos outros, o ano abordado para o Chile seria de 2020, ou seja, de 2020 até 2022, ao invés de 2019 a 2024.
Na página seguinte (71), fala-se já do desemprego prolongado (mais de 12 meses) e também do desemprego de curto prazo (até 12 meses) na faixa etária de 18 a 24 anos, a mesma que a Giovanna abordou, porque devo supor de que ela tenha explorado principalmente essa fonte da OCDE. E aí, além disso, o desemprego em estágios mais prolongados fica prevalente em países como Grécia e Itália (e que mesmo assim não são a maior fatia dos desempregados; ver página 72). O que esses dois últimos países têm em comum? Economias amarradas ao extremo, não tão diferentes do caso brasileiro. No caso italiano, por causa do desemprego e da alta carga tributária, para muitos italianos, é mais negócio receber o seguro-desemprego e ficar na informalidade. Os imigrantes acabam também ficando no setor informal, sofrendo com xenofobia e ressentimento.
Até agora falamos de fatos, derivados daquilo que a própria Giovanna fala do percentual dos "nem-nem". Agora vamos à outra parte do que ela disse (e que é uma opinião dela), de que "temos uma juventude que desistiu antes mesmo de começar". Essa opinião é cheia de problemas, pois além de ser um típico exemplo de falácia da composição, não explica nada e sim é apenas uma frase de efeito. Pior ainda: ao contrário do que ela pensa, outros perfis "têm a coragem de dizer" coisas parecidas, exatamente porque esse tipo de postagem sem profundidade cria engajamento, dentro do funcionamento das redes sociais. É apenas uma simplificação bem grande da realidade. Somando-se ao fato de ser um discurso pobre, ele ainda tira a responsabilidade dos outros fatores que não são vistos e que afligem essa parcela do "nem-nem" e invalida as dores e dramas daqueles que não conseguem se inserir no mercado de trabalho. É aquilo que não se vê, exatamente o que o Claude-Fréderic Bastiat disse no século XIX.
Se o Paulo Guedes falava dos invisíveis em 2020, temos também os invisíveis dos que não estão nas estatísticas de desemprego, pois se eles não procuram mais trabalho (e lhe prometo que vou detalhar bem isso), isso não pressiona as estatísticas. Se os nem-nem deveriam ser incluídos oficialmente como desempregados também, isso dá uma boa discussão e aí cabe ao IBGE deliberar sobre isso (e que, até onde sei, é uma decisão baseada nos padrões da Organização Internacional do Trabalho, ou seja, vem de décadas atrás e não está preso a nenhum governo). No caso brasileiro, se incluirmos os "nem-nem", isso pode fazer o percentual de desemprego - como ocorre com os dados americanos -, explodir. Já imaginou se aparecesse a mídia divulgando dados de desemprego de 30 e 40 %, num telejornal noturno? Só que essa massa de pessoas que desistiu de procurar também quer trabalhar, mas ela se depara com centenas e centenas de candidatos aplicando para a mesma vaga, em algo que não depende só de currículo e sim do "quem indica" e da "experiência" (e, em muitas cidades pequenas, do apadrinhamento, coisa que quem viveu quase a vida inteira num grande centro metropolitano é incapaz de entender). Isso também é corroborado pelos autores Maitê Rimekká Shirasu e Ronaldo de Albuquerque e Arraes, na página 118 do artigo "Decisão dos jovens brasileiros: trabalhar e/ou estudar ou nem-nem". Pior que isso: existe a situação daquele que mora numa pequena cidade interiorana paulista e então decide se candidatar para uma vaga na capital paulista, porque é lá que existe o setor no qual ele pode atuar e, então, há mais demanda para aquele tipo de mão de obra. Então, ele "por acaso" é chamado para uma entrevista. Só que aí, graças ao nosso rodoviarismo e infraestrutura precária, essa pobre alma vai ter que gastar uma soma considerável para ir para lá (só de passagens). Graças às regulações da Agência Nacional de Transportes Terrestres que impedem a livre concorrência, apenas uma empresa pode atuar em cidades com menos de 200.000 habitantes e, então, há poucas opções de rotas, porque temos aquilo que é a economia de escala, tirando a diversificação de necessidades. Os terminais rodoviários ou são completamente estatizados ou são privados sob monopólio estatal (este último caso é o de Mococa), ou seja, o pesadelo dos milhões de passageiros que passam por ali. Como são poucas rotas, então a pessoa vai ter que gastar também com estadia e mais outros gastos. Só que essa pessoa está desempregada. Gasta toda essa quantia para ir à entrevista, ela não tem nenhuma garantia de que será contratada, porque nem toda pessoa entrevistada é contratada. Embora este artigo mencione que hoje no Brasil, em municípios com até 200.000 habitantes somente uma empresa rodoviária de ônibus possa servir a mesma cidade (e é citado este documento), não encontrei nada especificando. Entretanto, nos casos das rotas de Mococa a São Paulo, somente uma empresa opera esses serviços. Por outro lado, quando vamos para, por exemplo, Campinas a São Paulo, as opções de horários aumentam, haja a vista de haver mais empresas. Esse setor no Brasil não é livre, definitivamente. Os reajustes das tarifas precisam ser autorizados por agências como a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp; Decreto Nº 29.913, de 12 de maio de 1989) e também pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), dependendo da modalidade e da região de atuação. A Prefeitura também precisa autorizar a empresa a atuar ali no município. E, obviamente, o empregador ou a pessoa dos Recursos Humanos não tem culpa se o estado atrapalha a vida dos cidadãos no tocante ao setor de infraestrutura. Mas isso não exclui o fato de que a vida dos candidatos é bastante dificultada pela carência no setor de transportes brasileiro. Já falei também do Departamento de Estradas de Rodagem, criado pelo interventor federal nomeado por Getúlio após o golpe em 1930? Se eu for falar do setor ferroviário, então, pior ainda.
Mas voltemos ao caso do candidato. Como esse sujeito vai conseguir experiência de trabalho, se o trabalho mais simples exige também experiência prévia? Isso não é nem o problema do ovo e da galinha não apenas porque, biologicamente, o ovo veio antes da galinha mas, também, essas pessoas basicamente tiveram as pernas e braços amputados e o que elas recebem? "Ah, você não está andando porque não quer, desistiu antes de tentar." São pessoas como a Débora Antunes, que depois de aplicar várias vezes para uma vaga de recepcionista, foram para a informalidade pois para, ela, como para milhões, é a única saída possível numa economia sufocada pela burocracia estatal, como o jovem Geovani Cunha, que ainda desempregado, viu os seus amigos serem seduzidos pelo tráfico de drogas. A Débora faz parte da massa de milhões que vive em regiões afastadas, porque tanto os burocratas quanto as elites não querem que o mais pobre possa morar perto do trabalho, o que torna a possibilidade de conseguir um emprego ainda menor, já que a rotina dessas pessoas é atormentada devido às longas distâncias percorridas. O IBGE estima que 85 % dos autistas estejam desempregados, ou seja, que tipo de mentoria vai resolver um problema desse tamanho? Eles são culpados? Desistiram antes de tentar? Como uma economia vai prosperar com isso? Não há intervenção divina que resolva um problema desse.
Uma das primeiras referências às pessoas que estão fora da força de trabalho por não estarem procurando um labor veio na Pesquisa Nacional por Amostra de Domícilios de 1967 (4º trimestre, no estado de São Paulo), onde, na página 4 (negritos meus):
"6.2 Pessoas Fora da Fôrça-de-Trabalho Classificam-se como tais as pessoas que não estavam ocupadas nem podiam ser consideradas desocupadas, por não estarem procurando emprêgo como, por exemplo, estudantes que apenas estudam, donas de casa, incapazes, aposentados sem exercer atividades e os voluntàriamente ociosos."
O primeiro censo feito à nível nacional (Censo de 1872) estima a quantia de 1.172.114 pessoas entre os "Sem profissão", numa população total de 9.930.478 habitantes. Entretanto, não é possível saber se essas pessoas realmente estavam simplesmente ociosas ou se aí eles colocaram outras classificações da época. Como a natureza da economia informal normalmente envolve de não ser fiscalizada pelo poder estatal, então pode muito bem haver muitos informais nessa categoria.
Agora, quando vamos às pesquisas mais recentes do IBGE, como as feitas do ano passado, tem-se várias estatísticas coletadas relacionadas aos que não estudam e estão fora da força de trabalho. Em notícia recente, o percentual caiu para 14,8 % para 2024 (ante 16 % de 2023), o menor na série histórica (que começou em 2012). Olhando de forma mais detalhada, segundo também o IBGE (para 2024), a quantidade de pessoas que nem estudam, nem trabalham e nem estão procurando por trabalho está em 9,301 milhões. Desses, há uma classificação curiosa, presente na Tabela 1.46, cuja descrição é "Jovens de 15 a 29 anos de idade que não estudam e não estão ocupados, e respectiva distribuição percentual por grupos de idade, sexo, cor ou raça e sexo e cor ou raça, segundo o principal motivo de não tomarem providência para conseguir trabalho no mês de referência e que nem gostariam de trabalhar". Dentro dessa tabela, são 4,632 milhões de pessoas. E há vários motivos listados. O que mais se aproxima daquilo que a Giovanna Mel disse, que seria o "Por não querer trabalhar", é composto de 575.000 pessoas. Lembre, são 9,3 milhões de "nem-nem" (incluindo todas as faixas de idade) e, dos de 18 a 24 anos, são 5,231 milhões (a maior parcela, preocupante). Acredite, já estivemos piores: o número de "inativos" em 2001 era de 14.132.777 de pessoas.
Desse recorte dos que não querem trabalhar (575 mil), são 376.050 pessoas entre 18 e 24 anos, ou seja, a faixa etária majoritária no recorte. São preocupantes, sim, mas não são a maioria entre os 5,231 milhões. E, ainda, os homens pretos ou pardos compõem o maior percentual disso: 69,8 %. Infelizmente, o IBGE não incluiu aí os indígenas, amarelos e sem declaração de cor e raça. Assim, a classificação se dá apenas em brancos e pretos ou pardos (e o Brasil é muito miscigenado!). Dos que abertamente admitem não querer trabalhar, o ano mais antigo foi o de 2016, quando esse número era de 778 mil. De 2016 até 2024, o ano pior foi justamente o de 2016, ano no qual a economia brasileira estava sofrendo ainda desde a recessão de 2014. Ainda, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), apenas 2 % dos jovens disseram que não queriam trabalhar e mesmo entre os "nem-nem", a maioria estava realizando alguma outra atividade, não era como se eles ficassem sentados na rua e olhando para "o nada". Ainda, o "não querer trabalhar" também pode querer dizer muitas coisas (não apenas necessariamente o que diz o artigo 59). Embora doutrinas como o calvinismo digam de que o trabalho é um fim em si mesmo (calma que eu vou falar mais disso adiante), na prática, o trabalho é apenas um meio para se atingir um fim, que é de aumentar o próprio bem-estar (embora nem sempre o ser humano consiga isso, pois somos imperfeitos pela natureza). O trabalho, na Língua Portuguesa, deriva do Latim tripalium, instrumento de tortura contra pessoas escravizadas. Já na Língua Inglesa, curiosamente, é relacionado a realizar uma certa ação.
Olhando a Tabela 1.49, intitulada "Distribuição percentual de jovens de 15 a 29 anos de idade, por tipo de atividade na semana de referência e grupos de idade, segundo classes de percentual de pessoas em ordem crescente de rendimento domiciliar per capita", tem-se que as pessoas com o maior percentual dos "nem-nem" ocupam a faixa dos "até 10 %", ou seja, os 10 % da população com os menores rendimentos, ganhando até R$ 341 mensais per capita (ver página 13 deste material). Essa é a parcela maior dos "nem-nem", de 2,249 milhões de habitantes, e esse maior índice de "nem-nem" é praticamente inversamente proporcional à renda familiar, algo quase perfeito (o mesmo ocorre com relação ao nível de ensino da pessoa, ver Tabela 1.45). Segundo a PNAD Contínua de 2024, as pessoas com ensino superior completo tendem a ganhar quase o dobro da média nacional (ver página 25; além disso, há também uma desigualdade de renda entre as pessoas mais velhas e mais jovens, ver página 46 do mesmo trabalho). Dentro do grupo dos 18 aos 24 anos com tal renda (o que não quer dizer necessariamente que eles ganhem isso mas pode indicar também a renda familiar na qual estão inseridos), a maior parte está nessa categoria, sendo 59,5 %. Nos ocupados, são somente 14,9 % ("só ocupados"), o que não necessariamente quer dizer que eles estejam empregados pois uma parcela está procurando por emprego. Na Tabela 1.47, "Jovens de 15 a 29 anos de idade que não estudam e não estão ocupados, e respectiva distribuição percentual por grupos de idade, sexo, cor ou raça e sexo e cor ou raça, segundo o principal motivo de não ter tomado providência para conseguir trabalho no mês de referência, mas gostariam de trabalhar", entre as principais razões para esses jovens (18 a 24 anos) não terem ido atrás de trabalho, constam "Tinha que cuidar dos afazeres domésticos, do(s) filho(s) ou de outro(s) parente(s)" (294.677 dos jovens de 18 a 24 anos) e "Não havia trabalho na localidade" (377.148 dos jovens de 18 a 24 anos). É bem verdade que esses são uma minoria em termos absolutos, em relação aos 5,231 milhões de nem-nem dos jovens de 18 a 24 anos. Grande parte dos contemplados nesses casos são pretos e pardos, também. Uma coisa que certamente desmotiva as pessoas a procurarem trabalho não é apenas o fato de a mesma vaga receber inúmeras candidaturas e aquela pessoa nunca receber um retorno, mas sim o fato de essa vaga simplesmente não existir. Se pensarmos que no Brasil existem 5.571 municípios e que grande parte das vagas está concentrada nas regiões metropolitanas e que, ao contrário de países como Argentina, a população brasileira é bem menos concentrada nas capitais, então existe uma grande desigualdade econômica. Grande parte dos municípios Brasil afora possui até 100 mil habitantes. Tal fenômeno não deve ser negligenciado. Essas cidades são as que mais sofrem com o atual ambiente regulatório pois, como a população é bem menor, os altos custos não conseguem ser diluídos por economia de escala como numa grande metrópole como São Paulo. Com isso em mente, é fácil saber o porquê do contraste eleitoral: em 2022, o interior paulista votou Bolsonaro e Tarcísio, ao passo que a capital paulista votou Lula e Haddad. E, claro, falo apenas do caso paulista pois os votos por município em diferentes partidos variam por cada federação no tão gigante Brasil. Não obstante a maior concentração de vagas e oportunidades de trabalho nas grandes cidades, algumas cidades desse porte perderam uma população considerável desde o último Censo.
Voltemos às tabelas. Na Tabela 1.8, o grupo de jovens (neste caso de 14 a 29 anos) é o destaque na informalidade: 29,2 % (empregado sem carteira assinada), contra 18,6 % da faixa de 30 a 59 anos e 17,8 % dos com mais de 60 anos. Ademais essa encrenca, a produtividade brasileira continua praticamente estagnada desde pelo menos 2012. Será que essas pessoas ficaram por 13 anos sem mentorias e formas de se comunicar melhor, ou é simplesmente o fato de que o Brasil inferniza a vida daqueles que querem utilizar mais maquinário e outros bens de capital para aumentar a produtividade, além de um sistema tributário e regulatório bagunçados? Não devemos esquecer que essa faixa mais jovem é a mais atingida pelo desemprego, o que explica a maior propensão à informalidade.
E o setor informal, quando se compara com o quarto trimestre de 2015, mostrou um aumento (naquele recorte, eram 35,078 milhões). O pico se deu no quarto trimestre de 2024, quando eram 39,307 milhões de pessoas informais e, então, no trimestre encerrado em novembro de 2025, eram cerca de 38,9 milhões. No panorama do Censo de 2022, há 23.645.316 de pessoas que trabalham por conta própria. Dessas, 72,92 % trabalham sem CNPJ. Dos empregadores (2.909.060), 14,08 % não possuem CNPJ. Em alguns aspectos, a economia brasileira atual lembra os séculos da América Portuguesa. As únicas diferenças é que naquela época havia a escravidão e que o pessoal de Lisboa não dava muita importância ao que acontecia na vida econômica no Estado do Brasil, ou seja: os impostos eram bem menores e os empreendedores eram menos achacados. As regiões Norte e Nordeste são hoje as que concentram, em termos percentuais, o maior contingente de informais (ver página 8 da "Características adicionais do mercado de trabalho 2024").
No artigo denominado "Duração do desemprego do jovem brasileiro", dos autores Natália Terroso Pereira, Vívian dos Santos Queiroz Orellana e Jorge Alberto Orellana Aragón, que aborda o contexto de alguns anos atrás, fala o seguinte, na página 397:
"Atualmente, a taxa de desemprego entre os jovens encontra-se muito elevada no Brasil, isso se dá, principalmente, a fatores como a falta de experiência, levando o jovem a permanecer por mais tempo na situação de desemprego, ou até mesmo, entrar para a inatividade por desalento. Nesse contexto, muitos empregadores preferem contratar pessoas mais velhas que possuem experiência no mercado de trabalho do que um jovem sem experiência, o que acaba retardando a entrada desse indivíduo no mercado de trabalho."
Há alguns dias, minha mãe (que é boomer) trouxe algo que provavelmente a maioria dos perfis verificados e seus discursos bonitos não fala: os empregadores preferem pegar quem já tem experiência prévia. Não tem nada a ver com "geração Z não querer saber de nada" ou o que qualquer discurso de baixa estirpe queira dizer. É apenas custos: custos trabalhistas no Brasil são altos. Uma empresa pequena pode quebrar se escolher errado na contratação. O inexperiente, que ganha abaixo do salário mínimo e daquilo que está estipulado, não vai ser contratado. As suas vantagens biológicas em relação aos mais velhos, tais como maior disposição física e menor propensão a doenças crônicas, são anuladas pelos custos. Nem todas as empresas conseguem custear o treinamento de funcionários novos. No estado de São Paulo, o salário mínimo é de R$ 1.804 mensais. O custo total, entretanto, pode chegar a ser três vezes o salário. Um salário de R$ 5,4 mil seria bom para muita gente que mora no interior e não tem experiência e até mesmo para graduados recentemente (não para quem mora ao redor do Parque Ibirapuera, todavia). Mas quem é que tem condições de arcar com um salário desses para uma pessoa inexperiente? E os processos trabalhistas?
Em seu artigo de 2016 "Britain’s Minimum Wage Short-Changes Young Workers", mencionando o salário-mínimo no caso britânico, Christopher Shaw afirma:
"O salário-mínimo nacional, introduzido em 1999 pelo governo Blair, foi visto como uma das melhores políticas para combater o trabalho exploratório e as condições de baixos salários. Que melhor maneira de alcançar isso do que criando um piso intransponível? Bem, parece que esse piso não era tão estável, já que os jovens têm sofrido o impacto mais forte dessa política equivocada. Efeitos graves como o aumento do desemprego juvenil, o subemprego significativo e uma série de efeitos mascaradores levaram a uma situação de mercados de trabalho subsaturados e à necessidade constante de jovens adultos buscarem outras atividades, como o ensino superior e programas de treinamento governamentais, ou simplesmente abandonarem o mercado de trabalho. Isso também teve o efeito de desqualificar os jovens e torná-los dependentes do estado de bem-estar social e de empregos de baixa qualificação e baixa remuneração por meio dos centros de emprego e dos programas de seguro-desemprego.
O fato de esse aumento no desemprego juvenil mesmo em momentos onde a economia esteja crescendo mais mostra também um dos motivos de o Brasil ainda ter tantas pessoas desempregadas ou completamente fora da força de trabalho. Até porque, as leis econômicas são universais. Não importa o lugar: se você tabela o preço da mão de obra acima daquilo que ela vale no mercado, essa mão de obra que não cabe nesse tabelamento vai ficar por aí, como vemos, procurando empregos, em subempregos ou simplesmente indo ao desalento. E aí, as pobres almas que querem tentar se salvar desse drama do desemprego (ou subemprego) acabam indo também para os programas governamentais de treinamento, porque os empregadores não conseguem custear o treinamento dos próprios funcionários, ocorrendo na prática uma estatização no setor.
No fim de 2009, o economista Leandro Roque afirmou (negritos meus):
"'Tá faltando emprego!' Essa sempre foi uma exclamativa muito frequente no Brasil. Curiosamente, uma outra exclamativa – que aparentemente denota o oposto desta – também sempre se manteve válida, independente da época: 'Tá sobrando trabalho a ser feito!' Pare pra pensar: vivemos em um mundo de escassez. Nenhum bem ou serviço surge pronto do nada. Todos eles precisam ser criados e trabalhados. Um carro não surge do nada. É preciso trabalhar o aço, o alumínio, a borracha e o plástico que vão formá-lo. E esses quatro componentes também não surgem do nada. Eles precisam ser extraídos da natureza e/ou fabricados. O mesmo é válido para todos os outros bens de consumo que você possa imaginar, de laptops a aviões, passando por parafusos, palitos de dente e fio dental. Todos precisam ser trabalhados. [...] Ou seja: não vivemos na abundância. As coisas não existem fartamente à nossa disposição. Todas elas precisam ser trabalhadas. Sendo assim, sempre haverá, em todo e qualquer lugar, algum trabalho a ser feito. Seja na fabricação de um bem de consumo, seja na prestação de algum serviço – nem que seja a limpeza de uma janela, a troca de uma lâmpada ou a limpeza de algum banheiro. Donde chegamos ao ponto principal: por que há escassez de emprego se há uma infinidade de trabalho a ser feito? Ora, esse descompasso só pode ser causado por algum tipo de interferência no mercado – isto é, na arena onde a demanda por bens e serviços e a oferta de mão-de-obra para executá-los se equilibram. Quando os austríacos dizem que num livre mercado genuíno não haveria desemprego, eles estão se baseando justamente no fato de que vivemos em um mundo de escassez onde sempre há algum trabalho a ser feito. Por exemplo, num mercado totalmente desregulado, você acharia facilmente alguém disposto a lhe pagar – sem medo da justiça trabalhista – para trocar uma lâmpada ou limpar uma janela diariamente. Entretanto, na nossa realidade, as coisas são diferentes. Você não tem nem a opção de varrer o chão do McDonald’s de graça, pois o gerente morreria de medo de você entrar na Justiça do Trabalho contra ele. São exatamente as regulamentações que o estado impõe ao mercado de trabalho – encargos sociais (INSS, FGTS normal, FGTS/Rescisão, PIS/PASEP, salário-educação, Sistema S) e trabalhistas (13º salário, adicional de remuneração, adicional de férias, ausência remunerada, férias, licenças, repouso remunerado e feriado, rescisão contratual, vale transporte, indenização por tempo de serviço e outros benefícios), além do salário mínimo – que provocam esse descasamento entre demanda por trabalho e oferta de mão-de-obra. O que é mais curioso: como dito, a demanda por trabalho é infinita e a oferta de mão-de-obra é limitada. Em tal cenário, seria de se esperar um pleno emprego. Porém, as intervenções governamentais conseguem a proeza de inverter as coisas: a demanda por trabalho, antes infinita, passa a ser mais limitada que a oferta de mão-de-obra – donde surge o desemprego."
É só isso. E nenhum texto de LinkedIn tem a mágica de burlar uma lei econômica, do mesmo jeito que não tem como burlar as Leis da Termodinâmica. São os estatistas que acreditam que toda e qualquer regulação sobre o setor privado não irá provocar nenhum tipo de dano no mercado. Eles que acham que é possível ter taxa de desemprego islandesa com uma legislação trabalhista parecida com a da República Bolivariana de Venezuela. Vossa mercê pode parar aqui e ir fazer outra coisa, se quiser (afinal o tempo é um dos bens mais escassos que existem). Caso não, então continuemos.
Mesmo quando analisamos aqueles que por algum motivo não querem trabalhar e nem tomar providência para tentar conseguir um trabalho, os 4,632 milhões dos 9,301 milhões do total, cuja tabela (1.46) é intitulada "Jovens de 15 a 29 anos de idade que não estudam e não estão ocupados, e respectiva distribuição percentual por grupos de idade, sexo, cor ou raça e sexo e cor ou raça, segundo o principal motivo de não tomarem providência para conseguir trabalho no mês de referência e que nem gostariam de trabalha", fica difícil saber ainda sobre todos os detalhes da vida dessas pessoas e suas famílias, mesmo que os pesquisadores do IBGE quisessem. Será que essas pessoas moram em bairros longe dos centros urbanos? Há transporte coletivo?
E o que poderia ajudar esses desalentados? Coisas como o Programa Jovem Aprendiz e os estágios. Mas aí, claro, o estado não poderia deixar de interferir nessas relações também, até porque, qual setor da sociedade brasileira o estado não regula? O Programa Jovem Aprendiz, que tem boas intenções do jovem conseguir ter experiência profissional mais cedo e com maiores chances de estar fora do drama dos desempregados (inclusive os que nem estão mais procurando o trabalho), é outro problema burocrático: cheio de distorções e restrições. Além de obrigar o sujeito a estar no ensino controlado pelo estado (ou seja, uma pessoa com ensino médio completo não conseguiria, em tese, estar apenas no processo de aprendizagem), não há liberdade contratual e os cursos muitas vezes não correspondem às reais demandas do mercado. Isso sem contar também a Lei do Estágio, que hoje cria burocracia para esse processo que muitas vezes ajuda os estudantes a se colocarem na força de trabalho. Contando um caso anedótico, durante a minha graduação em Biologia, eu tive uma colega que fez estágio voluntário num projeto relacionado à proteção de vertebrados na região litorânea do Nordeste, projeto este que teve várias horas de dedicação. Esse estágio foi considerado como horas do estágio obrigatório na graduação? Não: o estágio obrigatório não permite essa flexibilidade, ele é extremamente complexo de entender (uma disputa respeitável em complicação com relação à declaração do imposto de renda). Aquilo que existia no Brasil colonial, de situações como as do jovem começar a trabalhar como auxiliar de artesão para aprender o ofício, não existe mais, porque não deixam.
Entra naquilo que o Johel Rodrigues afirma no "O primeiro emprego e as complicações trabalhistas", de 2012:
"No período anterior à década de 1970, ainda existiam poucas universidades, e o diploma de nível superior praticamente já assegurava uma posição em uma boa empresa ou em algum cargo público. Porém, com o passar do tempo, mais universidades foram criadas e uma experiência prévia foi se tornando importante, sendo comum jovens trabalharem em bancos ao mesmo tempo em que cursavam faculdade. Nessa época, a legislação de estágio não era tão rígida, não garantia tantos direitos ao estagiário, sendo mais fácil este dar início às suas atividades mesmo que por vezes não obtivesse a remuneração das mais desejadas. Era isso, porém, que permitia a muitas pessoas pagar sua faculdade ou mesmo se destacar no mercado de trabalho. [...] O fato é que hoje a legislação de estágio está ainda mais amarrada, conferindo direitos típicos de um trabalhador regular de carteira assinada, como direito a férias de 30 dias para cada 12 meses de trabalho, bolsa-estágio e auxílio-transporte compulsórios em casos de estágio não-obrigatório. Além disso, o empregador deve obedecer a uma relação numérica mínima entre empregados e estagiários, isto é, para cada estagiário que ele queira contratar, a empresa deverá possuir de 1 a 5 empregados de carteira assinada para viabilizar a contratação; caso ele necessite de 2 estagiários, deverá possuir o mínimo de 6 a 10 funcionários. Isso eleva os custos para o empregador, o que acaba tornando a entrada do estagiário na empresa ainda mais difícil. Não é a toa, então, que está se tornando comum que o processo seletivo aplicado para candidatos à vaga de estágio etrainees seja exatamente o mesmo ao aplicado para candidatos a cargos de maior responsabilidade e remuneração."
Bom, se eu for falar de todas as nuances e distorções, vai dar outro artigo, não é?
Todas essas distorções na economia brasileira acarretam naquilo que o Douglass Cecil North disse quando veio ao Brasil em 1961 (página 27 de seu "Notes on my Brazilian trip", livro que infelizmente não encontrei e desconheço se existe algum acervo físico do mesmo):
"Dirigindo pela cidade [Recife], vejo uma linda praia rodeada de adensamentos residenciais e comerciais bem pobres, com massas de desempregados e subempregados."
Ou, se formos ainda antes, olhando os dramas dos assalariados urbanos no Brasil do século XIX (inclusive os imigrantes, que ainda sofreram discriminação), podemos ver o que afirma a Emília Viotti da Costa, em seu "The Brazilian Empire: myths and histories" (1985, página 196, tradução minha):
"[...] embora o mercado de trabalho tenha melhorado nas cidades e haja mais oportunidades do que antes, a maioria dos indivíduos de classe média continuou a depender do apadrinhamento para encontrar empregos."
Isso, num Brasil ainda sem leis trabalhistas (a primeira lei que se parecia com algo assim surgiria via decreto Nº 1.313, de 17 de janeiro de 1891, pouco após o golpe de 1889), mas que já estava cheio de vícios institucionais (ao contrário do que é romantizado por muitos monarquistas). Mudou algo?
Ainda, além de termos falado algumas das causas desse fenômeno perverso entre os jovens do País, não podemos esquecer de algumas das consequências disso. Uma delas é o custo de oportunidade: é impossível mensurar o quão mais rico o Brasil estaria se esses jovens simplesmente estivessem na força de trabalho, sejam como assalariados, sejam como empreendedores. É um potencial desperdiçado por conta dos incentivos distorcidos de uma economia amarrada, enquanto os perfis verificados em redes sociais ignoram isso e apenas fomentam uma culpabilização dessas milhões de vítimas. Essas milhões de vítimas não têm condições financeiras de fazer um lobby no Congresso para pedir por mais desregulação econômica. Quem tem condições, por outro lado, são os mesmos de sempre: grandes corporações que querem mais reservas de mercado, subsídios e políticas mercantilistas.
Comum também em muitos discentes na graduação (que, muitas vezes, acaba sendo uma forma de aumentar as chances de conseguir um emprego ou mesmo de um emprego que pague mais, no Brasil bacharelista), é o fato da falta de flexibilidade no sistema de ensino (olha o estado de novo, com o seu Ministério da Educação), o que faz com que os mais pobres tenham que abandonar os estudos para trabalhar (eu mesmo já presenciei isso em alguns colegas na minha graduação em Biologia). É o que mostra o "O jovem nem-nem no Brasil: evolução e determinantes" das autoras Raquel Tiemi Oguido e Marina Silva da Cunha, na página 3, ao citar outro trabalho, o "Estudantes trabalhadores de camadas populares em seu desafio cotidiano de conciliar trabalho e estudo" das autoras Lucinéa de Souza Pereira e Rosa Maria da Exaltação Coutrim:
"Já o trabalho de Pereira e Coutrim (2020) analisou os desafios enfrentados por estudantes trabalhadores de camadas populares na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Observaram como esses estudantes conciliam trabalho e estudo, considerando suas condições socioeconômicos e a rotina universitária. Os resultados mostram que a necessidade de manter o emprego, muitas vezes, leva à interrupção dos estudos. Além disso, a falta de flexibilidade das instituições e a incompatibilidade entre horários de trabalho e aulas são barreiras significativas. Assim, se destaca a importância de ações institucionais que facilitem a permanência desses estudantes, como flexibilização curricular e suporte acadêmico adequado, para que possam concluir o curso sem prejuízos à sua formação."
Ainda no artigo, na página 4, é mencionado o trabalho de Denise Guichard Freire e João Saboia denominado "Determinantes para a condição nem-nem dos jovens brasileiros: uma análise desagregada de inativos e desocupados", onde alguns fatores são apontados para uma maior chance de inatividade (que é quando não procuram emprego mesmo): baixa escolaridade, viver em famílias de baixa renda, ter filhos pequenos e ser cônjuge. Nos desocupados (os que ainda estão procurando por emprego), estão fatores como falta de experiência profissional e também a menor renda familiar.
Já em outro artigo, denominado "Long-term effects of youth unemployment on mental health: does an economic crisis make a difference?", dos autores Emelie Thern, Jeroen de Munter, Tomas Hemmingsson e Finn Rasmussen, foi demonstrado que o desemprego entre os jovens suecos tende a aumentar a chance de se ter problemas de saúde mental e vícios como alcoolismo (estrangeiros também foram pesquisados, mas eram uma pequena minoria e... surpresa, eles sofreram mais com o desemprego), não importando como está a taxa nacional de desemprego desse grupo, embora eles tenham mostrado alguns problemas ao longo da pesquisa, como o fato sobre como lidar com os diagnósticos de saúde mental de muitas décadas atrás, até porque os estudos mais aprofundados acerca da saúde mental só ficaram mais prevalentes muito mais recentemente.
E aí, enquanto as gerações ficam brigando com postagens insossas e que não resolvem absolutamente nada (porque se resolvessem não teríamos tantos milhões de desempregados e "nem-nem"), o estado continua aumentando o seu poder de tributar (4) e regular. Aliás, a publicação do Deutsche Welle tem razão em mencionar: vou usar o termo "sem-sem", porque são pessoas sem empregos e sem ensino. Pessoas injustiçadas e excluídas do mercado não porque quiseram, mas porque assim foram jogadas como tais.
A propósito: as prefeituras petistas Brasil afora retirando a exigência de alvarás (como a do município de Carnaubal ou do prefeito do PCdoB do município de Ipu) para variados tipos de empreendimentos já ajudam mais os "sem-sem" do que qualquer discurso bonito de rede social. Se quiser explorar o painel interativo Mapa de Empresas, está a convite.
Então fica a pergunta à Giovanna Mel e aos demais: como sabe que esses milhões "desistiram antes de tentar"?
Mais erros
Como ficou muito grande, então terei de copiar os trechos na íntegra. Nos parágrafos seguintes, ela afirma:
"E enquanto eles não querem nem tentar, o mercado segue aberto, mas só para quem ainda acredita em esforço, responsabilidade e disciplina. A verdade é que a geração que mora com os pais até os 30, que foge de desconforto, que acha que trabalho é 'opressão', é a mesma geração que reclama que a vida 'não anda'. Mas como é que vai andar se nem saiu do lugar?"
Além de ser uma generalização dotada de uma grande pequenez (eu sei, está paradoxal) e que não quer dizer absolutamente nada, eu lhe pergunto, Giovanna Mel: o que você diria à Débora Antunes, ao Geovani Cunha, autistas desempregados e mais a massa de milhões de desempregados e informais? E aos britânicos? Ainda: o que você diria aos mauritanos, sudaneses, democrático-congoleses, afegãos, tajiques e paquistaneses? E àqueles milhões que estão na informalidade ao redor do mundo? E o caso nepalês é muito mais dramático que o Brasil em termos econômicos, tanto que uma massa de jovens ficou furiosa ao se deparar com a boa vida em que o governo se situava. E o mercado não é um ente homogêneo, então falar que "segue aberto" é pura abstração. Como você tem tanta certeza disso? Nem um burocrata extremamente inteligente conseguiria prever as interações diárias de milhões de seres humanos (o Gosplan não conseguiu). O mercado apenas é um conjunto de interações voluntárias que acontece em constância. O seu sucesso mostra isso, afinal você atendeu e atende às demandas dos consumidores. Inegável que esforço, responsabilidade e disciplina são sim importantes, mas as coisas não são tão simples como muitas postagens desse tom fazem soar.
Sobre a geração que mora com os pais até os 30 anos, isso não é necessariamente um problema per se. Há uma certa pressão social sobre o que se espera dos jovens de fazer até os 30 anos (no caso de Alexandre III, eram outros tipos de pressões) e que, muitas vezes, tem a sua razão de existir mas, por outro lado, oculta também os outros dramas pelos quais essa massa passa. Eu sei que você está falando das pessoas que "se acomodaram" e ficaram na casa dos pais até os 30 (ou mesmo depois disso), mas já pensou naquelas pessoas que cuidam dos pais? Viste as estatísticas que apontei? Lá apontam, pelo menos, centenas de milhares de mulheres que tiveram de parar de procurar trabalho porque precisavam se dedicar às tarefas domésticas e a cuidar dos pais. Muitas são pessoas que moram nas periferias, que são esmagadas ou pelo estado ou, dependendo do caso, por facções criminosas. Em termos estatísticos, não encontrei dados recentes sobre o percentual de brasileiros adultos que ainda moram com os pais (a "geração canguru", embora seja uma coisa meio injusta com os cangurus, no ponto de vista biológico, mas é outra discussão...), ao menos não pelo IBGE. O mais recente disponível é de 2013 (média de 24,6 %). Nos Estados Unidos, a média nacional ficou de 18 % para 2023 (interessantemente, houve queda por lá nos últimos anos) mas, como o país é grande e diverso, há cidades onde essa taxa é de 33 % (Vallejo, Califórnia) até baixos 3 % (Odessa, Texas). Vallejo tem custo de vida acima da média nacional, ao passo que Odessa é o contrário. É claro que também há outros fatores como questões culturais ou de pura comodidade (e demais variáveis), mas o custo de vida nunca deve ser descartado como algo que tende a retardar a saída dos filhos da casa dos pais (aqui você acha os dados de vários países europeus). E essa afirmação da Giovanna tem outro problema: sair da casa dos pais não implica necessariamente em independência. Quando uma pessoa sai de uma cidade de interior para fazer uma graduação em outra cidade, em termos estatísticos, ela pode até estar morando fora da casa dos pais, mas se os pais continuam sustentando a pessoa (que está "só" estudando), isso não é independência financeira. Algumas ainda podem em morar em alojamentos estatais das universidades e, normalmente, para morar nos alojamentos, as condições financeiras precisam ser bem baixas para atender aos critérios governamentais.
Se formos estender essa questão "das metas para até os 30 anos", temos outras coisas em jogo: por exemplo, aprender a dirigir na estrada sozinho. Há pessoas que começam já aos 18 anos, depois de adquirida a Permissão para Dirigir. Por outro lado, há pessoas que começam a fazer isso com 30 anos, 40 anos, ou até mais. Sabendo-se que o Brasil é rodoviarista em demasia, em muitas cidades, aprender a dirigir é uma questão de sobrevivência, incluindo-se empregos (não por acaso é o meio mais comum a ser utilizado para se deslocar até o trabalho). Do mesmo jeito, tem mulheres em seus terceiros decênios que ainda não se casaram e estão solteiras. Será que devemos julgar as vidas dessas pessoas de tal forma ou entendermos que cada pessoa tem a sua própria história? Obviamente, casar-se aos 40 anos não é a mesma coisa do que a pessoa conseguir o primeiro emprego aos 40 anos, porque este último demonstra um problema muito mais grave, entrando naquilo que já disse aqui, caso formos levar ao extremo os chamados "sem-sem", mesmo porque grande parte dessas gerações está na juventude, até os 29 anos. Quer dizer que não exista pessoas com quarenta anos ou mais nessa situação? Não, claro que existe. Se a pessoa tem 40 anos e ela arruma outra que a sustente e esse arranjo é feito de forma voluntária, o que poderei fazer sobre isso? No socialismo soviético, por exemplo, era trabalho todo dia e sem intervalos (e também, com bastante humanidade). Só numa sociedade com ainda (alguma) economia de mercado, é possível existir algo assim. Nas economias como a soviética, isso era reservado à alta burocracia, o Politburo.
Mas vamos voltar ao caso da habitação, porque este é bastante interessante. A alta no custo de vida, aliás, não tem atormentado só os brasileiros mas também as outras populações mundo afora. Desde o experimento de Teoria Monetária Moderna pós-2020, a carestia mundial virou palco de reclamações não só entre os brasileiros, mas de toda a população ao redor do mundo. E aí quando falamos na questão imobiliária, então é pior ainda, sendo também pauta de reclamação praticamente global. Enquanto os mais jovens reclamam disso (com razão), o que eles recebem? Respostas vazias e descaso. E aí não entendem a eleição do prefeito Zohran Kwame Mamdani. E todas essas políticas de zoneamento e juros baixos na marra beneficiam os ricaços cujos ativos dependem do valor do imóvel (entre os 50 mais ricos do Brasil, grande parte tem mais de 50 anos). Não apenas em imóveis, porque vários outros ativos tendem a se valorizar, porque o dinheiro recém-criado chega primeiro aos mais ricos, além do fato de que os maiores detentores de ativos são eles. É por isso que eles ficam apavorados quando os bancos centrais elevam a taxa de juros. Se os bancos centrais elevarem demais os juros, esses ativos irão se desvalorizar. Muitas grandes empresas são extremamente alavancadas e as que conseguem a maior parcela de empréstimos e dívidas.
Voltando ao caso brasileiro, basta falar que, pelo Índice de Valor de Garantias Reais (IVG-R), que estima os valores de imóveis dados em garantia a financiamentos imobiliários para pessoas físicas (tanto hipoteca quanto alienação), os preços dos imóveis continuaram em subida, não importando a renda real da população. O valor inicial em março de 2001 era 100. Já para novembro de 2025, constava o mesmo índice em 756,32. Aumento de 656,32 %. Tivemos apenas uma queda de março de 2015 (550,93) até novembro de 2017 (520,82), depois praticamente foi só subida. Nem no preço dos aluguéis a situação se salva.

Analisando o histórico da destruição e degradação do setor imobiliário brasileiro, ele tem raízes bastante antigas. Não vamos voltar aos tempos do "bota-abaixo", e sim ao histórico recente. Diferentemente do caso americano, onde a inflação se tornou um fenômeno mais recente desde o fim de Bretton Woods, o caso brasileiro é bastante inusitado (o que não poderia sair de inusitado daqui?) pois a geração Z é a primeira geração a nunca ter passado por uma hiperinflação na vida desde a Geração Missionária, dependendo de quantos anos as outras gerações seguintes às da geração previamente mencionado viveram. Mas, mesmo assim, a velocidade da desvalorização da moeda pode ter até diminuído, mas ela nunca parou de se desvalorizar. E quando chegamos ao caso do setor imobiliário, uma das principais causas da explosão em seus preços nesse século XXI foi pela via da demanda, caso parecido ao americano.
No início do século XXI, o chamado crédito direcionado começava a subir no setor imobiliário. O crédito direcionado é basicamente o crédito em que os bancos estatais são obrigados a fornecer a taxas abaixo das praticadas pelo Sistema Especial de Liquidação e Custódia (a SELIC). Hoje a taxa SELIC está em 15 % anuais.
Em junho de 2000 o crédito era de 57,474 bilhões de reais brasileiros. Já em dezembro de 2025, passava para 1.306.104.000.000, um trilhão, trezentos e seis bilhões e cento e quatro milhões de reais brasileiros. Ou seja, aumento de 2.172,51 %. Um aumento tão estrondoso no crédito sem aumento na poupança só poderia ser possível num regime que misturasse o sistema de reservas fracionárias e subsídios governamentais.
Como você verá, há linhas de cores diferentes no gráfico. Não se preocupe, pois é hábito o sistema do Banco Central descontinuar uma série e começar outra, por isso as diferenças nas cores no gráfico do crédito direcionado. Na prática, todavia, muda pouca coisa.



A expansão creditícia se intensificou no fim da década de 2000 e, desde então, fora alguma desaceleração entre 2014 e 2020, nunca mais parou de subir, não importando a ideologia de quem esteja no poder. Instituído pela lei nº 11.977, de 7 de julho de 2009, o Programa Minha Casa Minha Vida continua com pulso firme. Hoje os principais beneficiados do programa são as construtoras (além de normalmente ter um péssimo urbanismo e arquitetura).
Quando analisamos a renda média real das pessoas no Brasil, por outro lado, o negócio é algo complicado. Tentei pegar números que pudessem equivaler ao que hoje é usado como Rendimento médio real efetivo de todos os trabalhos da PNADC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), mas não encontrei. Mas, se tiver curiosidade, há algumas rendas mensuradas no Anuário estatístico de 2002 (que contém dados de 2001). Por este motivo, tive de pular vários anos e fui já para fevereiro de 2012, o dado mais antigo disponível. Para fevereiro de 2012, o rendimento era de R$ 2.525. Já para novembro de 2025 - mais recente -, o valor ficou em R$ 3.732 (esse rendimento soma não apenas o salário médio mensal e sim outros possíveis rendimentos). Nessa faixa de tempo, foi uma variação na renda em 47,80 %. Já se for pegar o IVG-R no mesmo período, daria um aumento de 69,57 %. Ou seja, o valor dos imóveis subiu, apenas nesse ínterim, quase vinte e dois pontos percentuais acima do aumento da renda.

Mas tal mensuração ficaria ainda um pouco imprecisa. Então vamos pegar os dados do PIB per capita por paridade de poder de compra, em dólares americanos de 2021. Aqui, temos dados de 2001 até 2024 (o ano mais recente). Nesse intervalo de tempo, daria uma variação no PIB per capita em 40,21 %.

Lembre-se, o aumento do IVG-R foi de de 656,32 % (março de 2001 a novembro de 2025). Se eu for um pouco mais preciosista e medir de março de 2001 a dezembro de 2024, essa variação teria sido em 626,4 %. Só se existisse algum índice substituto ao IVG-R de janeiro a fevereiro de 2001, e naquele ínterim, tivesse ocorrido uma forte deflação de preços no setor imobiliário, para que realmente ocorresse uma grande diferença nessas variações que demonstrei. O IC-Br (o índice brasileiro de commodities) está em alta histórica, como nunca antes neste país. Ou seja, todas as matérias-primas ficaram mais caras para a população. E toda a cadeia econômica sofre influência por conta disso, do encanador até um importador de máquinas para siderúrgicas.

Mesmo que eu defenda que seja bom que as pessoas possam morar sozinhas (e, no final das contas, isso não importa, porque o que eu acho ou não, irá bater de frente com as leis econômicas), isso muitas vezes não é possível. E, também, nem tudo no Brasil se resume aos perfis verificados querendo pregar virtudes e frases de efeito. O Brasil é o país dos milhões de pessoas sem saneamento básico e de uma economia mais fechada que a de Cuba. São dezenas de milhões de pessoas simples que sustentam uma carga tributária titânica (aquelas que conseguem um emprego ou ter o seu negócio).
Segundo dados do Monitor Global de Empreendedorismo, feito pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em parceria com a Associação Nacional de Estudos e Pesquisas em Empreendedorismo, o terceiro maior sonho dos brasileiros é em ter o próprio negócio, sendo superados somente por "Viajar pelo Brasil" e "Comprar a casa própria" (página 6). Paradoxalmente, ao mesmo tempo, um percentual bem grande destes no "empreendedorismo inicial" o faz porque "os empregos são escassos" (página 16), não obstante o fato de o País ter uma renda baixa e um percentual de pessoas com o próprio negócio maior do que nos Estados Unidos (página 41 do relatório mais detalhado, a nível global). Ali no relatório é também demonstrado que essa relação é algo ambígua pois, em certas situações, quando há mais oportunidades de emprego, o custo de oportunidade para abrir um negócio próprio tende a ser maior. Sabendo-se que o Brasil é mais empreendedor que os Estados Unidos por estes termos, então por que continuamos pobres? Será que é porque o Brasil não conseguiu sair da armadilha da renda média e que é uma economia amarrada há várias décadas?
O restante da postagem é só uma mistura de história pessoal (eu particularmente preferiria transformar isso em alguma obra literária, mas cada pessoa tem suas prioridades), algumas frases de efeito e uma interpretação que lembra a teoria do valor-trabalho misturada com meritocracia (que também está completamente errada e é utilizada com força pela "direita"). Ainda assim, tem partes que merecem uma resposta. Fosse as coisas tão simples como ela afirma, o Haiti (ou Sudão) seria um dos países mais ricos do mundo. O "trabalho duro" contido na postagem é apenas uma repetição de uma doutrina calvinista de séculos atrás, misturado à uma noção bem simplista da realidade. Perto de onde moro, vinha sempre uma catadora de lixo, que já era de idade e tinha problemas de varizes. Ela literalmente era o exemplo perfeito daquilo que a Giovanna Mel disse de "trabalho duro": puxava o carro com a própria força, seja tomando sol na cara (e acredite em mim, Mococa é bem mais quente que São Paulo) ou tomando chuva, por várias horas ao dia. Extremamente laboriosa. Depois teve que parar com isso, para não piorar o seu problema nas pernas. Nesses anos todos de labor intenso, ela ficou rica?
Conforme dito, os escritos dela lembram um pouco do que o Emil Kauder fala sobre os calvinistas, na página 5 do seu A History of Marginal Utility Theory, de 1965 (tradução minha):
"Calvino e seus discípulos colocaram o trabalho no centro de sua teologia social... Todo trabalho nesta sociedade é investido de aprovação divina. Qualquer filósofo social ou economista exposto ao calvinismo será tentado a conferir ao trabalho uma posição exaltada em seu tratado social ou econômico, e não há melhor maneira de exaltar o trabalho do que combiná-lo com a teoria do valor, tradicionalmente a própria base de um sistema econômico. Assim, o valor se torna valor-trabalho, que não é meramente um instrumento científico para medir taxas de câmbio, mas também o elo espiritual que une a Vontade Divina à vida econômica cotidiana."
E então, tempos depois, teríamos os equívocos de Adam Smith, pontuados por Murray Newton Rothbard na página 453 de sua obra "An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, Volume I: Economic Thought Before Adam Smith" (tradução minha):
"O verdadeiro preço de tudo, o que tudo realmente custa para quem quer adquirir algo, é o trabalho e o incômodo de obtê-lo. O que tudo realmente vale para quem o adquiriu e quer se desfazer dele ou trocá-lo por outra coisa é o trabalho e o incômodo que isso pode lhe poupar e que pode impor a outras pessoas. O que é comprado com dinheiro ou com bens é adquirido com trabalho, tanto quanto o que adquirimos com o trabalho do nosso próprio corpo... Eles contêm o valor de uma certa quantidade de trabalho que trocamos por aquilo que se supõe, naquele momento, conter o valor de uma quantidade igual."
Conforme Rothbard em breve mostraria na mesma página, esse conceito entra em contradição, afinal se colocar nessa conta os graus de "dificuldade" e "esforço" por hora trabalhada, aí se torna uma verdadeira baderna intelectual. Mais alguns séculos depois, os marxistas fariam a festa com essa teoria errônea econômica e os resultados foram extremamente humanitários. E, também, não se trata de apologia à vadiagem e sim da demonstração de fatos econômicos.
É também possível falar de vários outros casos: um músico ou um artista. Quantos não foram os artistas que precisaram de um mecenas para sobreviver? Muitos músicos e artistas só deram certos assim, não importa o "quão duro eles dessem", precisando de um capitalista que se dispusesse a arriscar o seu capital naquele potencial talento. Vincent Willem van Gogh hoje é mundialmente conhecido mas, em vida, tinha que ter ajuda do irmão Theodorus van Gogh, porque conseguir insumos de pintura eram uma fortuna, mesmo que a condição deles não fosse precária. Muitos foram os artistas geniais que precisaram de "um empurrão" de capitalistas, como os mecenas nas cidades-estado italianas. Com os músicos, também não foi diferente. Quantos foram os músicos que você conhece, que eles precisaram de algum contato e de alguém rico disposto a financiá-los? Em outros mercados como os das modelos, é a mesma coisa. Nem tudo gira em torno de "vitimismo".
Quando alguém tenta vender soluções simplórias para um problema coletivo, acontece essa disparidade: a vítima recebe toda a culpa por toda a tragédia econômica que assola o Brasil, enquanto quem fomenta essas distorções fica sem culpa alguma (e fique tranquila que eles serão reeleitos). Enquanto ela faz uma extrema simplificação da realidade das milhões de pessoas não apenas no Brasil, mas no mundo, a realidade socioeconômica se mostra em fatos, dados, estudos e análises. É fato que muitas das coisas na nossa vida dependem da gente, mas o mundo real também engloba várias outras ações e fenômenos que não dependem da nossa vontade.
Se formos levar a sério esse discurso, então até a caridade privada seria uma coisa a se questionar. Se pensarmos, por exemplo, naqueles que ajudaram de forma privada e voluntária as vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul, será que as pessoas iriam falar que as vítimas das enchentes são culpadas, já que elas moravam em áreas de risco ou que não, há muitos outros fatores em jogo que levam essas pessoas a morar nessas áreas de risco, como o déficit habitacional, a pobreza, o zoneamento e o plano diretor?
Cuidado com esses discursos, porque eles esquecem que o problema é muito mais sério e profundo do que "juventude que desistiu antes mesmo de começar".
Vou deixar o final desse artigo para o comentário do Renan Martins Frade, feito ali mesmo no LinkedIn (e que, de certa forma, acaba dando razão aos dados e fatos que apresentei):
"Giovanna, minha sugestão: olhe para além da sua bolha. A maioria da população brasileira passa por dilemas muito mais profundos, infelizmente. São pessoas marcadas pela dificuldade no acesso à educação, exclusão social, gravidez precoce, que não possuem acesso à tecnologia, que sofrem com a falta de emprego sem qualificação… Isso é particularmente grave com jovens de periferia, negros, mulheres e outros grupos vulneráveis. Para a gente, que tem melhor acesso, é realmente mais fácil se mover, mas para quem está preso na inércia fica bem mais difícil. Precisamos olhar para esse dado que você traz menos com olhar de julgamento, e mais com a percepção de que é necessário incluir em vez de excluir."
Notas
1. Aliás, o PIB do Brasil cresceria 10 % ao ano, a taxa cambial chegaria a menos de R$ 4 e o desemprego cairia para 2 %, se as pessoas parassem de se importar com o X e o Threads.
2. Meu puxão de orelha aos editores do IMB, que insistem em ficar alterando o sítio eletrônico e quebrando os links e as imagens. Meu artigo, como vários outros, está sem imagens e com links quebrados. Quando é que farão algo?
3. Dependendo do período letivo, as jornadas dos alunos numa graduação em uma universidade estatal não costumam ser moleza (e sem romantismo, muitos têm problemas de saúde mental). É por isso que é comum que muitos alunos que trabalham acabem trancando matrículas ou mesmo saindo do curso.
4. Alguns alegados liberais não gostaram de quando os libertários criticaram a reforma tributária. Do fim de isenções fiscais aos autistas de grau de suporte 1 (alínea "c" do inciso II do artigo 149) até o aumento de imposto sobre os aluguéis, quem agora nos deve explicações são eles. Cadê vocês agora? É nisso que dá quando não leem Murray Rothbard.




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