• Felipe Lange

Narcos: como estava a economia mexicana?

Felipe Lange



Antes de darmos continuidade ao artigo, um alerta (de novo): contém spoilers, embora não quanto você possa imaginar.


Há alguns meses, fiz uma breve análise sobre a série francesa Versailles, da Netflix. Agora irei fazer quase a mesma coisa, só que com um enfoque maior no contexto da terceira temporada da série Narcos: Mexico.


Terminado de assistir toda a temporada, venha viajar comigo no tempo, para conhecer um pouco mais sobre o que se passava no México nestes tempos. Prepare-se!



Os primeiros anos


A terceira temporada começa já sob um contexto num México após a prisão do poderoso Miguel Ángel Félix Gallardo, o que resultou na dissolução do Cartel de Guadalajara. O narrador da série chega a dizer de que a prisão de Gallardo tem alguma relação com o fato de que o governo mexicano mostrou interesse em cooperar com o governo americano na guerra contra as drogas, para se chegar ao NAFTA. Como eu não encontrei nenhuma evidência sobre, então não posso afirmar se isso ocorreu.


Carlos Salinas de Gortari estava em seu início de mandato (falei um pouquinho sobre aqui), dando continuidade às privatizações iniciadas pelo antecessor, assim como em medidas de forte austeridade. O peso mexicano passava a ser atrelado ao dólar americano (o que ocorria desde fevereiro de 1988, quando um dólar custava 2,22 pesos), o que demoliu a hiperinflação que estava assolando o fim do mandato de Miguel de la Madrid. Carlos possui doutorado em Economia na Universidade de Harvard e trazia uma certa imagem boa ante os americanos, em especial o governo americano.


Salinas também iniciou uma série de privatizações: em 1989 haviam 666 estatais (acredite, houve uma época em que o México tinha 1155 empresas estatais). Em 1994, já eram 258 estatais. Junto à essas privatizações, houve também várias medidas de liberalização nos setores econômicos (detalhes aqui). Com isso, investimentos estrangeiros passaram a fluir para o país, ajudando a aumentar as reservas internacionais do Banxico. Parte desses fluxos foi para comprar as empresas mexicanas que deixavam de ser estatais.


Além das privatizações, houve uma forte austeridade: o governo mexicano conseguiu quatro anos seguidos de superávit nominal (o superávit primário já existia há mais tempo), com uma considerável queda nos níveis endividamento.


A inflação de preços, que estava em 179,73 % anuais em fevereiro de 1988, chegou a 6,71 % em setembro de 1994, algo que não se via no país há algum tempo, ainda que longe de padrões germânicos. Com essas reformas, a popularidade de Carlos ficou ainda maior.


Em 1990, seria criado o controverso Fondo Bancario de Protección al Ahorro (Fundo Bancário de Proteção à Poupança, conhecido como Fobaproa), um fundo governamental que seria usado para socorrer bancos com problemas de liquidez. À grosso modo, era uma imitação do FDIC, o Federal Deposit Insurance Corporation.


Com a abertura comercial (ainda que tímida, pois ainda havia restrições de nacionalização de componentes), as chamadas maquiladoras (abordadas brevemente ao longo da série) aumentariam de número, com produção de peças de veículos para o mercado interno. Havia ainda as integrantes do programa PITEX (Programa de Importación Temporal para Producir Artículos de Exportación), que visava trazer mais competitividade às empresas domésticas, envolvendo isenções de tarifas, caso cumprissem certos requisitos. Em 2006, o programa seria fundido e teria aprimoramentos.


De 1994 em diante, as exigências de conteúdo nacional e cotas mínimas de exportação seriam eliminadas, até serem zeradas por completo em 2004. Um caminho diferente do que o tomado pelo Brasil.



O que deu errado?


Embora possa soar como fixo, o peso mexicano ficou assim somente por 1 ano e alguns meses. Depois, ele passou a flutuar, neste caso com limitações impostas pelo banco central, como existia no Brasil entre 1994 e 1998.


É o que podemos ver na taxa cambial, neste gráfico abaixo:


Taxa cambial USD/MXN (dólar americano/peso mexicano): 01/02/1988 - 15/12/1994.



Em 1994, ocorreram dois eventos que assustariam até os brasileiros: em janeiro, um levante violentíssimo em Chiapas (e que dura até hoje); em março, o assassinato do candidato à presidência (pelo Partido Revolucionário Institucional) Luis Donaldo Colosio Murrieta enquanto realizava campanha em um bairro humilde (foi mencionado também na série; o desfecho é um mistério até hoje). O governo mexicano, no início desse ano, passou a rolar sua dívida interna denominada em pesos (Cetes) em dívida indexada na moeda americana (os chamados Tesobonos). Essa medida trouxe alguma calmaria para os mercados, que interpretaram como uma mensagem de que o peso mexicano não seria desvalorizado.


Diante dessa fuga de capitais com o assassinato de Colosio, ao invés de o Banxico tolerar uma maior desvalorização e aumentar mais os juros para voltar a atrair mais capitais, preferiu expandir o crédito, ao mesmo tempo em que se mantinha a taxa cambial inalterada, com os Cetes sendo passados para Tesobonos. Era ano eleitoral e, com isso, o governo julgou isso como o mais adequado.


Com o Fed começando a aumentar os juros (à partir de 4 de fevereiro de 1994, cujo ciclo se encerraria somente em fevereiro de 1995), junto com o assassinato de Colosio, os investidores cobravam por maiores prêmios de risco para os títulos e demais investimentos mexicanos.


Com a eleição garantida do PRI, em novembro daquele mesmo ano, ocorreria a renúncia do procurador-geral adjunto, tornando pública a sua alegação de que o governo havia bloqueado a investigação do assassinato de seu irmão em setembro. Isso provocou ainda mais fuga de capitais.


Em dezembro daquele mesmo ano, havia rumores de uma súbita desvalorização do peso. Esses eventos culminaram em perdas de reservas internacionais (por volta de US$ 20 bilhões ao longo de 1994). Esses rumores vieram entre os dias 15 e 19 daquele mês. A instabilidade maior em Chiapas piorou o problema. No dia 20, foi anunciada uma maior banda cambial (um aumento de 15 % na banda), causando uma nova fuga de capitais no dia 22 (com uma queda de US$ 4,5 bilhões de reservas em apenas um dia).


A outra encrenca é que o M1 subiu em um ritmo muito maior do que a quantidade de reservas internacionais, além do fato de que as taxas de inflação de preços entre o México e os Estados Unidos estavam bastante diferentes. Ou seja, havia uma sobrevalorização do peso e isso já ameaçava os seus fundamentos (algo que Hanke já havia previsto em julho de 1994).


E então eles desistiram e deixaram o peso mexicano flutuar. Em questão de dias, o peso mexicano afundou e o preço da distorção veio:


Taxa cambial USD/MXN (dólar americano/peso mexicano): 31/01/1994 - 26/04/1995.



Colapso


No dia 27 de dezembro, o leilão dos Tesobonos falhou, recebendo uma proposta de somente US$ 28 milhões (dos US$ 600 milhões que foram oferecidos). Com a acumulação do governo de Tesobonos, os níveis de amortizações em dólares que venceriam nos primeiros meses de 1995 estavam muito altos. Com a desvalorização aguda da moeda, amortizar as dívidas contraídas em dólares ficou inviável. E então veio a moratória externa.


Índice de preços, valores anuais e em %, janeiro de 1994 a dezembro de 1995.



A cadeia de desastres acabou ficando conhecida como "Efeito Tequila", afetando vários países emergentes (Brasil foi afetado e perdeu muitas reservas internacionais, mas logo se recuperou e a sua moeda se manteve). Muitas instituições financeiras quebraram, investidores começaram a se desfazer de ativos mexicanos, acentuando ainda mais a desvalorização da moeda mexicana. Os quatro trimestres de 1995 foram de contração, apesar dos socorros feitos pelo Fobaproa.


Carlos Salinas ficou com a sua reputação manchada, apesar de a bomba ter estourado já com o sucessor eleito, Ernesto Zedillo (assumiria em 1º de dezembro de 1994, tendo sido eleito em 21 de agosto daquele mesmo ano). Os mexicanos sabiam, portanto, que a culpa fora de Salinas.



Hora de arrumar os estragos


Em 1995, o governo americano e o Fundo Monetário Internacional, então, anunciaram um pacote de ajuda de US$ 52 bilhões para evitar a inadimplência e aumentar a confiança na economia mexicana, além de ajudar a compor as reservas internacionais. Isso obviamente exigiu contrapartidas sobre o governo mexicano, pois era um empréstimo. A proposta, por ter embarcado grandes somas de dinheiro, chegou a ter oposição de alguns líderes do Congresso à época, mas ela acabou indo adiante. Sofreu também críticas da mídia pois, na prática, os americanos (e também os imigrantes que moravam nos Estados Unidos) estavam pagando por isso.


Vale lembrar que, nessa época, Bill Clinton já estava no poder (ele ficaria entre 20 de janeiro de 1993 e 20 de janeiro de 2001). Robert Rubin, o seu novo secretário do Tesouro, esteve envolvido. Foi passada a chamada Lei de Divulgação da Dívida Mexicana de 1995.


Mais do que uma aparente benevolência, o objetivo do socorro era de não prejudicar o comércio com os mexicanos (o NAFTA já estava valendo desde janeiro de 1994) e de diminuir uma eventual imigração em massa de mexicanos para as terras americanas.


O governo mexicano acabou que quitando a dívida com o governo americano com três anos de antecedência, além de o Tesouro americano ter lucrado US$ 500 milhões com juros do empréstimo (houve uma comemoração em 1997).


O Banco de México mudaria a sua política monetária: passaria a ser de metas de inflação anuais, com o peso mexicano como um papel flutuante. Esse regime de metas passaria a vigorar em 1996. Em abril de 1994, o Banxico ganharia autonomia, algo que está até os dias de hoje. A meta de inflação de preços de 3 % (centro da meta) daria seu início em 2002.


Zedillo continuou com as privatizações, tendo feito um total de 45 processos de vendas de ativos estatais, em seus seis anos de mandato. Houve várias autorizações de para novas distribuidoras de gás natural, novos entrantes em setores de saneamento, transporte de passageiros, rodovias, entre outros.


Apesar do desastre monetário, o México se diferenciava de seus irmãos latino-americanos pelo seu conservadorismo fiscal (o que se mantém até hoje).


Orçamento do governo mexicano, 1994 a 2000.


O endividamento do governo em relação ao PIB também caiu de maneira considerável:


Dívida governamental em relação ao PIB (%), 1994 a 2000.



Parte dessa queda no endividamento se deu ao crescimento no PIB do país, que acumulou


Crescimento anual do PIB, primeiro trimestre de 1994 a último trimestre de 2000.



Formação bruta de capital fixo, primeiro trimestre de 1993 a último trimestre de 2000.



Se no início as taxas de aprovação do governo estavam baixas, Zedillo acabou que encerrando o mandato com níveis de aprovação até que razoáveis, ainda que no México não haja reeleição.


Ainda que o NAFTA seja imperfeito (por envolver burocracias), é inegável que o acordo fez com que a indústria mexicana tivesse de ficar mais competitiva, para justamente atender ao exigente mercado consumidor americano. A principal pauta de exportações do país para os americanos envolve o setor automotivo. Esse setor também vivenciou um aumento nas exportações. Muitos modelos já foram exportados para o mercado brasileiro: Volkswagen Golf, Ford Fiesta, Nissan Versa, Nissan March, Nissan Tiida, entre outros. O Volkswagen Jetta vendido no Brasil é feito em Puebla, México.


Exportações de carros, em milhares de unidades, primeiro mês de 1990 até o último mês de 2000.



O que mais demorou a cair foi a inflação de preços que, durante quase todo o governo de Zedillo, ficou acima de 10 % anuais. Ainda que a queda tenha ocorrido, permaneceu em valores mais altos do que os vivenciados nos anos de peso atrelado. Foi somente no século XXI que então os preços ficaram mais contidos e, ironicamente, o índice de preços com o peso flutuante ficaria menor do que nos anos de peso atrelado, o que foi contrário ao ocorrido no Brasil.


Ernesto encerraria o seu mandato em 30 de novembro de 2000, deixando a economia relativamente arrumada, ainda que com vários desafios pela frente. A sua taxa de aprovação foi aumentando à medida que a economia do país melhorava.


O governo mexicano ganharia grau de investimento já no início do século XXI, algo que também está sendo mantido até hoje, haja vista a rigidez fiscal que o atual governo AMLO tem buscado (a despeito de suas trapalhadas em regulações e intervenções sobre o setor privado).


E então chegamos ao governo Vicente Fox, que já foi abordado neste artigo.



E o Carlos?


O personagem Carlos Hank González, abordado na série de uma maneira não tão profunda, realmente existiu: ele ascendeu a sua carreira de maneira espetacular, indo de professor para um dos membros mais influentes dentro do PRI, influenciando fortemente os rumos dos governos em exercício, inclusive do próprio Carlos Salinas. Também contribuiu na fundação do conglomerado Grupo Hermes, que hoje tem o seu filho como o responsável pela empresa. Carlos Hank colecionou também algumas acusações criminais, a principal delas sendo o vazamento de um relatório do extinto National Drug Intelligence Center, chamado de Operation White Tiger, na qual ele foi acusado de ter ligações com cartéis de narcotráfico mexicanos, além de lavagem de dinheiro. A acusação acabou que não sendo levada adiante. Hank morreria em 2001 de câncer, aos 73 anos. A família Hank continua operando os seus negócios no país.



Desafios


Apesar das reformas e da boa saúde fiscal, o México continua sendo um país com toneladas de regulações (com um setor informal bem maior que o brasileiro), o que na prática resulta em altos níveis de corrupção, a ponto de que metade da população mexicana pesquisada admitiu ter pago subornos para acessar serviços públicos. Por causa de fracas instituições, falta de respeito aos direitos de propriedade e da guerra contra as drogas, os mexicanos se veem em um país com uma altíssima taxa de criminalidade, bastante associada aos cartéis que ficaram mais violentos e militarizados, isto é, piores do que os cartéis mostrados ao longo da série Narcos (e mais violentos do que os cartéis no Brasil). O cartel Los Zetas, por exemplo, teve como um de seus fundadores um ex-membro de forças especiais do exército mexicano. Muitos membros antigos da facção eram agentes de forças especiais militares do México. A facção se caracteriza por métodos de tortura, sequestros, extorsões e decapitações.


De toda forma, que a segunda maior economia latino-americana consiga superar esses obstáculos.


 

Imagem de abertura: Cerimônia de inauguração do NAFTA, outubro de 1992. Autor desconhecido, imagem sob domínio público, disponível no George Bush Presidential Library and Museum.


 

Recomendações de leitura:


- Use those gringo dollars;

- The rebirth of Mexico;

- O fracasso da legalização do cigarro: uma lição para o caso das drogas;

- O que esperar do México com Obrador?;

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